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<i>Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias</i> é drama sem melodrama

Arquivo Geral

25/01/2008 0h00

Uma estudante grávida, um aborto clandestino, um regime totalitário. Se cada um desses dados, isoladamente, já configura um drama considerável, imagine-os combinados, um intensificando a malignidade dos outros. Pois é isso o que ocorre em Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias. O que torna extraordinário o filme de Cristian Mungiu é o rigoroso minimalismo com que essa história é narrada, fugindo a qualquer tipo de melodramatização, de discurso moral.


Ainda que a narrativa seja ambientada em 1987, nos estertores da ditadura de Ceaucescu, não se trata aqui de um “filme-denúncia”. O contexto histórico só acentua o desamparo de seres frágeis diante das asperezas do mundo. Duas garotas – a grávida Gabita (Laura Vasiliu) e sua amiga Otilia (Anamaria Marinca) – lançadas num purgatório silencioso, feito de perigo físico e opressão moral, que pode, a qualquer momento, tornar-se um inferno.


A reação de uma contrasta com a da outra: Gabita age, ou antes, deixa de agir – como uma criança passiva e alienada; Otilia toma iniciativas, enfrenta a adversidade, amadurece anos em horas. Muito desse processo duplo e contraditório se revela sutilmente nos cantos do quadro e não raro fora dele, exigindo do espectador uma atenção ativa.


Mungiu refuta a narrativa hollywoodiana, com sua teleologia e sua ausência de “pontos sem nó”. Em Quatro Meses…, como na vida, quase todos os pontos ficam sem nó.


A certa altura, por exemplo, Otilia está com a amiga no quarto de hotel onde se fará o aborto. Aproveitando uma ida do aborteiro ao banheiro, ela fuça em sua maleta e pega uma faca.


Condicionados por Hollywood, esperamos que faça algum uso dela. Mas não: o objeto é deixado de lado, perde totalmente o interesse. O que importa é o gesto estabanado da personagem. O filme é cheio dessas pistas falsas. Parece nos dizer que a vida é um acúmulo de pequenos erros e que muito do seu brilho está no desejo de acertar. Dessa perspectiva, Otilia é uma das criaturas mais belas do cinema atual.

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