“A cidade é assim: os seres vêm e vão.” Assim Heracles – personagem de Sidney Santiago (da série da TV Globo Carandiru) – descreve São Paulo, cidade-monstro que abriga as incertezas desse adolescente recém-saído da Febem, protagonista de Os 12 Trabalhos, segundo longa-metragem de Ricardo Elias (De Passagem) que estreou na última sexta-feira (13) nos cinemas da cidade.
Baseando-se no mito do semideus grego Hércules, Elias e Claudio Yosida assinam o roteiro – que conta a história de um jovem negro que arranja um emprego de motoboy graças à ajuda do primo Jonas (Flávio Bauraqui, de Madame Satã e Quase Dois Irmãos), que também trabalha na função.
Uma observação: o nome grego do filho de Zeus é Heracles, mas os romanos o rebatizaram de Hércules. Para fugir do lugar-comum, Elias preferiu a versão grega.
12 tarefas
No primeiro dia de trabalho, Heracles recebe 12 tarefas a serem realizadas na metrópole. Durante a prova de fogo, o ingênuo adolescente tem de lidar com situações adversas – como dar carona a um gato fujão e entregar um “bagulho” para um cliente nada receptivo – e enfrentar preconceito em relação à tarefa de acompanhar um senhor solitário ao médico. E, claro, Heracles enfrenta a raiva de uma cidade que enxerga nos motoboys tudo o que há de errado no trânsito paulista.
Além de fazer um raio-X (com toques de poesia) da metrópole, o longa deixa latente a questão da falta de perspectivas dos jovens brasileiros das classes C e D.
“É um filme que toca em questões sociais”, resume o diretor. “Com lançamento modesto (o projeto custou R$ 1,5 milhão, considerado um baixo orçamento), fala de um personagem relacionado a coisas desagradáveis; a TV trata o jovem negro sempre como um bandido em potencial, mas isso não é verdade”, continua Elias.
O diretor também explorou a temática da exclusão do jovem da periferia em seu primeiro longa De Passagem, lançado em 2003. Elias pretende permanecer mais um pouco no tema com o filme Beatriz – em produção –, cujo roteiro, também escrito em parceria com Yosida, trata do banditismo sob o ponto de vista de uma menina.
Os 12 Trabalhos marca a estréia no cinema de Sidney Santiago, de 22 anos, e já lhe rendeu o Troféu Redentor de Melhor Ator no Festival do Rio do ano passado. “O filme levanta várias questões: o que um jovem negro e pobre pode fazer para estar dentro da sociedade? E qual o caminho dessa sociedade, que sofre um apartheid social e cultural?”, indaga o ator, que afirma já ter sido vítima de preconceito racial. “O filme é uma experiência sensível sobre a metrópole – não é sobre motoboys, nem meninos da Febem: é um olhar sobre a cidade”, resume Sidney.