O Engenho de Zé Lins é um título perfeito para o documentário que o cineasta paraibano radicado em Brasília Vladimir Carvalho, 72 anos, lança hoje nos cinemas, após abocanhar dois troféus Candango no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2006.
No duplo sentido da palavra “engenho’ estão contidas as duas linhas de força do filme: de um lado, o contexto de decadência dos engenhos de açúcar do Nordeste, engolidos pelas usinas; de outro, a força criativa de José Lins do Rego (1901-1957), que plasmou em literatura esse processo social.
Paraibano de Itabaiana, cidade vizinha à Pilar natal de Lins do Rego, Carvalho diz que o filme tem aspecto autobiográfico, pois a figura do escritor foi importante na sua formação.
“Meu pai era fanático por Zé Lins e eu comecei a ler os livros dele logo depois de me alfabetizar’, conta o diretor, que na infância foi punido com a palmatória pela mesma Dona Marieta, então já velhinha, que aparece moça no livro Meus Verdes Anos, de Lins do Rego.
Descoberta
Carvalho levou cinco anos para concluir seu documentário. A demora se deveu à falta de recursos (o Fundo de Ajuda à Cultura, de Brasília, só entrou no final da produção) e à incessante descoberta de novos documentos sobre o escritor.
“Às vésperas de mixar o filme, uma das filhas de Zé Lins, Maria Cristina, achou a fita da entrevista que ele deu a uma rádio de Lisboa em 1956′, diz o diretor, que reorganizou o material para utilizar esse depoimento como fio condutor.
Vladimir Carvalho fez a maior parte da sua pesquisa no Rio, onde vasculhou os arquivos fotográficos da Academia Brasileira de Letras, do Arquivo Nacional e da Editora José Olympio, além de consultar o acervo rico e disperso das três filhas do escritor.
Encontrou coisas preciosas, como registros cinematográficos de José Lins do Rego nos casamentos de duas filhas e cantando em um banquete festivo do Flamengo, o seu clube de coração, do qual chegou a ser dirigente.
A paixão rubro-negra do escritor, aliás, ocupa boa parte do documentário, que chega a exibir trechos de um fatídico Botafogo 2 x 1 Flamengo no Maracanã. O escritor e amigo Carlos Heitor Cony chama a atenção para uma foto em que Lins do Rego aparece “convulsionado pelo pranto’, abraçado a uma bandeira do Flamengo, depois de uma derrota do time, possivelmente a mostrada no documentário.
Acidente
O ponto nevrálgico do filme é um fato trágico ocorrido na infância do escritor e mantido em segredo pela família durante um século: quando menino, Zé Lins matou acidentalmente um amigo com um tiro.
Para vários dos entrevistados no documentário, essa obscura tragédia teria moldado a personalidade de Lins do Rego, ao lado da perda da mãe aos seis meses de idade e da asma que o acompanhou na infância.
Outro tema central é a amizade íntima entre Lins do Rego e Gilberto Freyre, comentada por entrevistados como Carlos Heitor Cony e Ariano Suassuna e ilustrada por lindas fotos. Numa delas, Freyre aparece nu, tomando banho de cachoeira.
Para Carvalho, o sentimento pessoal de perda que marcou a vida do escritor ecoa o processo de decadência dos engenhos. Dessa simbiose entre o íntimo e o histórico, Lins do Rego forjou clássicos como Menino de Engenho e Fogo Morto.
Por falar em perda, melancolia e esquecimento: no filme, o diretor entrevista crianças da escola pública José Lins do Rego, em Pilar. Nenhuma delas sabe quem foi o escritor.