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<i>O Cheiro do Ralo</i> é insalubre, portanto fácil de engolir

Arquivo Geral

23/03/2007 0h00

Grosso modo, O Cheiro do Ralo, novo filme do cineasta pernambucano Heitor Dhalia (Nina) que salta nesta sexta-feira para as telas, fala sobre bunda. É, exatamente isso. Um par de nádegas em particular: da garota da lanchonete cujo nome “é impossível de se pronunciar e deve ser resultado da união de, pelo menos, três nomes: dos seus pais com o de algum astro da TV”, segundo definição do protagonista-narrador da história, Lourenço – em mais uma equilibrada performance de Selton Mello.

A câmera na mão introduz uma visão tropical da bermuda justa da garçonete, com palmeiras e traços multicores estampados, arrematada por uma trilha sonora praiana, assinada pelo experiente produtor Apollo Nove, cuja marca é conhecida desde o experimentalismo manguebeat de Otto ao pop questionável de Wanessa Camargo.

Dhalia ganha o espectador ao seguir uma fórmula contrária à apresentada. Lourenço, nome utilizado como alter-ego de Lourenço Mutarelli, autor do livro homônimo de onde se origina a trama, é um profissional autônomo depressivo, noivo fujão, de humor instável e dono de um galpão onde negocia compra e venda de objetos antigos. Esteticamente, o diretor opta por apresentar verdadeiras tralhas. Detalhe melindroso.

Mais do que o romance sugerido entre Lourenço com o traseiro da garçonete, Dhalia provoca o espectador ao costurar a relação de amor e ódio do personagem com o ralo de seu banheiro, que exala cheiro fortíssimo e o obriga a justificar-se toda vez que recebe alguém; e ainda seu vislumbre por um olho, pivô das conversas amigáveis com clientes.

Em segunda análise, O Cheiro do Ralo desvenda a mente humana a partir da personalidade instintiva do personagem central: entre surtos de temperamento, espanca cliente, humilha encanador, “compra” bundas e cheira o ralo. Lourenço não é exemplo de uma boa pessoa, mas Dhalia o reveste de tanto carisma que o transforma em mártir, com pitadas de sarcasmo e até momentos para se puxar um riso no canto da boca.

O ritmo do filme, algumas vezes comprometido por explicações fartas quadro-a-quadro, arma um thriller de suspense que, ao final, se resolve como tal: abruptapmente. As conclusões são facilidadas pelo narrador, em constante embate com os porquês sobre suas atitudes. Seria o odor nauseabundo daquele ralo responsável por ativar seus prazeres hediondos? A resposta pode estar no onipresente par de nádegas, no olho ou no próprio cheiro do ralo.

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