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<i>O Caçador de Pipas</i>: Muito barulho por nada

Arquivo Geral

18/01/2008 0h00

O Caçador de Pipas amarga a mesma sina de outra febre literária norte-americana que o antecedeu: O Código Da Vinci. Ambos são best-sellers, concebidos com uma linguagem modesta e narrativa simplória, porém, assessorados por temas oportunos. O romance de Dan Brown sugeriu uma relação amorosa entre Cristo e Maria Madalena e foi apedrejado pelo Vaticano.

A obra do afegão naturalizado americano Khaled Hosseini não fica atrás ao provocar a milícia talibã e, agora, ter proibida no Afeganistão a exibição de sua adaptação cinematográfica, dirigida pelo inglês Marc Forster, que estréia esta sexta-feira nos cinemas brasileiros.

Seria exagero chamar O Caçador de Pipas de polêmico. Porém, é exatamente a tal insatisfação de seus rivais que, como ocorreu com O Código Da Vinci, se responsabiliza por boa parte do burburinho que o elevou ao status de best-seller e, por que não,  possibilita uma adaptação tão urgente para a tela grande.

“Muito barulho por nada”, como intitulava Shakespeare uma de suas comédias. Afinal, O Caçador de Pipas não é mais do que um romance oportuno. Carrega as dores do 11 de Setembro, de um Afeganistão massacrado e de um autoritarismo selvagem.

O filme não comenta, mas Hosseini endossa que, curiosamente, o Afeganistão só começa a “existir para o mundo” ao arrombamento de suas fronteiras pela invasão soviética em 1979. O futuramente extremista governo talibã passaria, então, a criar um Afeganistão ainda pior (“afegãos não deixam barato”, comenta Hosseini por meio de seu narrador-protagonista, Amir).

No entanto, esse cenário desenhado cuidadosamente por Hosseini – um retrato quase autobiográfico da infância do autor em Cabul – não é a essência de O Caçador de Pipas. O livro, superestimado, apropria-se de modelos de flashbacks e uma textura pseudopoética para narrar a história de amizade de dois garotos na capital afegã dos anos 1970.

O longa-metragem derivado do livro entende perfeitamente a alma dessa história e dela subtrai cansativos trechos auto-explicativos, apara algumas arestas das elipses narrativas e poupa o espectador dos detalhes redundantes da obra original. Ainda assim, sua trama não é suficiente para chegar à telona como um grande filme.

O diretor Marc Forster – cuja carreira regular o permitiu atuar em dramas adultos (A Última Ceia), infanto-juvenis (Em Busca da Terra do Nunca) e com viés cômico (Mais Estranho que a Ficção) – talvez tenha sido a melhor aquisição da versão cinematográfica de O Caçador de Pipas.

Adaptação
Qual adaptação literária, o diretor se mune de poucos artifícios para concentrar toda a ação (ocorrida em mais de 300 páginas) em duas horas de película. Forster encontrou alguns bons meios de costurar o roteiro dependente da narrativa (livro) e dos diálogos (filme) com momentos de contemplação (em favor da sensível linha dramática central) – mesmo em detrimento de passagens relevantes do romance.

O elenco infantil é excelente,  valorizado pelas atuações dos  afegãos Zekeria Ebrahimi (Amir), Ahmad Khan Mahmidzada (Hassan) e Ali Danish Bakhty Ari (Sohrab). O adulto sofre com a rejeição do melodrama no qual seus personagens se vêm revestidos em seu tratamento original.

O trabalho de Forster diante da idéia original de Hosseini é fidedigno. Reproduz, senão ao menos a essência, os sentimentos necessários ao desenvolvimento dos personagens.
Amir, garoto de classe abastada de Cabul, tem em Hassan (filho do empregado de seu pai) um melhor amigo que custa a assumir. Amir é da linhagem pashtu,  e Hassan pertence a uma minoria étnica denominada hazara. O preconceito na sociedade é latente. E isso reflete diretamente na condição de Amir, que luta pela aceitação do seu pai (isso não fica muito claro para quem não leu o livro).

A ação pula para o ano de 2000, quando Amir, do alto de seus 38 anos, está morando confortavelmente nos Estados Unidos e recebe uma ligação do Paquistão. Do outro lado da linha está Rharim Khan, melhor amigo de seu pai nos tempos áureos do Afeganistão com cheiro de khabob de carneiro. Ele pede a Amir para voltar à terra natal sob o pretexto de que estaria muito doente. Ao final, ele o convence com o jargão martelado no livro: “Há um jeito de ser bom novamente”.

Se pareceu piegas é porque o é. A tormenta do personagem central (narrador no livro), um passado que insiste em levá-lo de volta a uma Cabul que havia abandonado na pré-adolescência, engrena uma evolução dramática que da culpa à redenção e é tratada com  superficialidade e excesso de reviravoltas. Isso porque Marc Forster dispensou algumas delas.

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