Em 1906, a publicação de The Jungle, de Upton Sinclair, provocou uma pequena revolução nos EUA. Escrito a partir da pesquisa realizada na indústria de carne de Chicago, em que o autor testemunhou ratos mortos jogados em máquinas de fazer salsicha, vacas doentes abatidas normalmente e tripas recolhidas do chão sendo transformadas em presuntada, o livro chocou a opinião pública e fez o governo rever sua política sanitária para comida industrializada.
Em 2001, Eric Schlosser tentou repetir o feito com Nação Fast Food, descrição do funcionamento dos abatedouros e fábricas de hambúrguer do Estado do Colorado (EUA), mas a polêmica do livro não chegou perto do impacto de The Jungle.
Richard Linklater se apropriou do material do livro de Schlosser e o transformou no roteiro de um filme de não-ficção, com uma repercussão ainda menor. A versão em longa-metragem de Nação Fast Food, que estréia hoje nos cinemas, foi recebida com absoluta frieza no Festival de Cannes de 2006 e seu lançamento nos EUA, em novembro do ano passado, passou praticamente despercebido. De alguma forma, Linklater falhou no quesito escândalo, mas nem por isso fez um filme sem interesse.
Ao contrário, Nação Fast Food é a rara descrição de uma cadeia produtiva complexa que resulta na produção de um dos alimentos mais consumidos pelos americanos – o hambúrguer. Essa descrição, em sua forma ficcional, começa na viagem de um executivo de uma rede de fast-food (interpretado por Greg Kinnear) à cidade que abriga os abatedouros de onde sai a matéria-prima dos sanduíches. O executivo recebe a missão de visitá-los quando seu chefe avisa que um teste detectou “shit in the meat” (“fezes na carne”).
A viagem do executivo (um especialista em marketing acostumado a criar slogans para novos sanduíches) é o pretexto para se desvelar as relações econômicas, políticas e humanas que fazem parte da cadeia do hambúrguer, começando com a exploração da mão-de-obra ilegal de imigrantes mexicanos.
Linklater constrói bem gêneros que andam desgastados e repletos de fórmulas (o filme-denúncia e o filme-panorama), conseguindo expor sua crítica com clareza sem recorrer a um excesso de esquematismos.
Apesar das fraquezas do filme, que é irregular sobretudo em seu ritmo, Nação Fast Food traz personagens com vida própria – como a operária interpretada pela ótima Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar por Maria Cheia de Graça – e algumas seqüências antológicas, como o fracassado protesto dos eco-adolescentes e a nauseante descrição da carne que faz o hambúrguer nosso de cada dia.