Um filme que tem seu lançamento envolto em uma aura de superprodução intocável, bem ao estilo de Hollywood. Com um orçamento de US$ 70 milhões, A Lenda de Beowulf estreou em primeiro lugar nos Estados Unidos, mistura cenas com atores reais em cima de muita computação gráfica hi-tech e ainda traz um casting recheado de grandes nomes, como John Malkovich, Anthony Hopkins e Angelina Jolie – esses dois últimos, inclusive “aparecem nus”.
Enfim, uma solução moderna para contar uma das histórias mais antigas da língua inglesa. O Beowulf do título, vivido por Ray Winstone, é o personagem de um poema épico escrito no século VIII, de autor desconhecido e baseado em uma lenda escandinava.
Enredo
Beowulf é um herói viking que chega ao reino distante do rei Hrothgar (Anthony Hopkins) – um bonachão e desapegado de suas riquezas – para salvar a região de um terrível monstro, Grendel (Crispin Hellion Glover).
Com sua virilidade, o herói derrota o demônio Grendel em apenas uma luta, mas ao achar que seu trabalho estava cumprido e que poderia partir do reino confiante e glorioso, eis que cai em tentatação, ou melhor, nas garras da mãe de Gredel: a “monstra” mais bela do cinema, diga-se de passagem, Angelina Jolie aparece na telona completamente nua, coberta apenas por uma camada dissolúvel de ouro, um salto 15, em uma comparação inevitável à nossa tupiniquim Globeleza.
Desiludida com a perda de seu filho, o monstro Grendel, tudo o que ela quer de Beowulf é outro filho, para que esse continue a perpetuar a maldade no reino. É nesse ponto que o indestrutível Beowulf se transforma em um exímio anti-herói, repleto de conflitos existenciais.
Animação versus realidade
O diretor Robert Zemeckis, que em 2004 já havia se aventurado na tarefa de misturar animação com atores reais no surpreendente O Expresso Polar, volta a tratar o universo fantástico de monstros e dragões de uma forma mais, digamos assim, real. Ao menos, essa é a justificativa usada por Zemeckis para fazer uso mais uma vez dessa técnica.
Aliás, a transformação entre o que foi filmado e o resultado final foi tão diferente e surpreendente que fez Hopkins afirmar em uma coletiva para lançar o filme nos EUA: “Fiquei bem?’. A pergunta é explicada pelo fato de que ele realmente não sabia que apareceria nu, pois não filmou dessa forma – seu corpo, assim como o de todos os outros atores, é digital, recriado pela impressionante técnica de captura de movimento. O resultado obtido com essa alquimia de Zemeckis revela uma experiência no mínimo curiosa.
O ponto negativo do longa é que, para os mais puristas, cinematograficamente falando, essa técnica pode proporcionar certa desconfiança ou até uma verdadeira aversão. Afinal, o espectador pode esperar de tudo no filme, o que gera indagações como: “Esse personagem é real?”, ou “Esse corpo existe?”.
Em alguns momentos do longa, fica visível que se trata de uma manipulação gráfica, por conta da perda de tridimensionalidade e a ausência de volume das figuras na tela. Muitos movimentos dos personagens parecem ter um certo “atraso” em relação à ação em si, deixando um ar de “slow motion”.
Outro questionamento tem relação com a veracidade das personagens. Até chegar o fim do longa, não se tem certeza, por exemplo, se a rainha Wealthow é real ou não. Só para constar: ela realmente existe e foi vivida pela atriz Robin Wright Penn.