Se existe uma lição a tirar de A Espiã é que numa guerra nunca se sabe quem é quem. É possível levar a lógica mais além: a guerra traz à tona o que existe de mais profundo nas pessoas, da generosidade à ganância, do altruísmo ao egoísmo, da fidelidade à traição. É possível concluir, de modo pessimista, que, a rigor, nunca conhecemos ninguém.
Digamos que o filme de Paul Verhoeven fica, nesse nível, por aí. Mas há razões para crer que não seja esse o aspecto principal das reflexões do autor de Robocop de volta à Holanda.
Senão, vejamos: não será pelo menos estranho constatar que esse cineasta experiente realiza um filme em que se abre tão gentilmente aos cada vez mais numerosos caçadores de incongruências e implausibilidades? E elas pululam ao longo deste thriller admirável.
Questões desse tipo podem ser suscitadas ao longo de toda a trama, que se organiza na Holanda, no final da guerra. Devido ao assédio dos nazistas, Rachel e família tentam fugir para a Bélgica. A balsa em que viajam é metralhada pelos alemães. Única sobrevivente, Rachel (Carice van Houten) engaja-se em um núcleo da Resistência e passa a se chamar Ellis de Vries. É feita espiã e torna-se amante do chefe do serviço secreto da SS, Ludwig Müntze (Sebastian Koch).
Toda história de espionagem – ainda mais se duplicada pela resistência – carrega um tanto de inverossímil, como Htichcock sabia muito bem. Mas a época de Hitchcock era de crença. Hoje, é de descrença. Não é por acaso que tantos filmes (inclusive este) usam a caução: “baseado em fatos reais”.
É esse núcleo da arte contemporânea que Verhoeven trabalhará de maneira específica aqui. As reviravoltas são tão rocambolescas que é quase impossível ao espectador não se perguntar se aquilo é possível. Ao mesmo tempo, as cenas são tão bem construídas que logo esquecemos a inquietação e deixamo-nos levar pelo “e por que não?”.
Sim, por um lado a guerra torna tudo possível. Mas não é sobre isso que se apóia A Espiã, e sim sobre a contemporânea descrença na narrativa. É como se Verhoeven jogasse o espectador contra o seu próprio ceticismo: é justamente por resistir à narrativa que ele se deixará levar pelas imagens. Embalado por elas, Verhoeven providencia uma nova reviravolta, uma nova ambigüidade no rosto dos personagens, um novo mal-estar que o retire de seu conforto.
A Espiã chega vítima de um título nulo (O Livro Negro seria mais fiel ao original). Talvez ele ajude, em sua platitude, a exorcizar alguns dos mal-entendidos que rondam a carreira desse notável autor.