O que é que a Bahia tem? Diz aí, você, garota ou garoto que já amarrou fita do Senhor do Bonfim no braço, que já pegou mar no circuito Barra-Ondina, que já subiu o Elevador Lacerda, que já desceu as ladeiras do Pelô (o Pelourinho), que já sonhou em ser alguém ou em, pelo menos, sobreviver na terra de Dona Canô. Pois é, você que já fez (ou não) tudo isso, também pode testemunhar a vida baiana em Ó Paí, Ó, filme de Monique Gardenberg (Benjamim) que traça um mosaico do melhor e do pior que a Bahia tem, por meio da representação de um dos espaços mais característicos de Salvador: o Pelourinho.
É ali que a diretora desta produção – estrelada por Lázaro Ramos, Wagner Moura (ambos de Cidade Baixa), Stênio Garcia (Carga Pesada) e grande elenco (grande mesmo, são dezenas de coadjuvantes e centenas de figurantes) – traça um perfil da cultura e da sociedade baianas, suas relações com o comércio do turismo e a luta pela sobrevivência em meio a uma pobreza que pouco, ou quase nada, abre espaço para a perspectiva de um futuro melhor. Tudo isso entremeado com pitadas de violência, verbal, física ou racial.
A falta de tolerância e o calor das relações previstas em um roteiro livre, quase artesanal, graças à direção leve de Monique lembra a polêmica e explosiva produção norte-americana Faça a Coisa Certa (1989), de Spike Lee, que mostra 24 horas no Brooklyn, um distrito de Nova York (Estados Unidos), no dia mais quente do ano. Lee retrata as diferenças de pensamento e comportamento entre negros, ítalo-americanos e orientais. Algo que descamba em uma violência que vai subindo de tonalidade aos poucos, até chegar ao trágico clímax.
Em Ó Paí, Ó – produção com direito a trilha sonora habilmente escolhida, que complementa e, em alguns casos, supera a própria cena – também é retratado um dia quente (como os dias são quentes na Bahia, ora, real e figurativamente) num cortiço cuja água é desligada, no último dia do Carnaval, pela proprietária, Joana (Luciana Souza, grata revelação), que quer acabar com a festa alheia.
A partir daí, os conflitos se sucedem. Pela volta da água, por respeito, por segurança, por fidelidade, por trabalho, por amor, por sexo. E, assim, são apresentados típicos personagens deste caldeirão de referências do que é a Bahia: o aspirante a compositor de axé music, a baiana do acarajé, o pequeno traficante de drogas, a mocinha que sonha em ser dançarina, os cordeiros de bloco de Carnaval, a mulher que sonha em casar com um “moço do estrangeiro”, a mulher que casou com um “moço do estrangeiro” e teve que se prostituir na Europa, a falsa jogadora de búzios. Só faltou o capoeirista. Incrível, aliás.
Com tantas referências e participações especiais (afinal, o baiano não nasce, estréia), Ó Paí, Ó não se perde na busca daquilo que se propõe: ser uma comédia de costumes. Comédia de costumes bem divertida. Do tipo que a gente quase se desacostumou a ver.