Vladimir Carvalho, representante máximo do cinema brasiliense de resistência, descansa dos anos de chumbo – tema de seus dois filmes anteriores, Conterrâneos Velhos de Guerra (1991) e Barra 68 (2000) – e revira o baú de sua memória afetiva, dos tempos de menino entre o estado natal, Paraíba, e Recife.
No entanto, seu instinto irrequieto de documentarista fareja o teor político e social na história do romancista paraibano José Lins do Rego, pesquisa incorporada no filme O Engenho de Zé Lins, obra que representa o Distrito Federal na mostra competitiva entre longas-metragens no 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A exibição do filme será nesta sexta-feira, com sessões às 20h30 e 23h30, no Cine Brasília.
Lins do Rego, filho de senhores de engenho do Nordeste rural açucareiro, realizou sua obra-prima em 1932, Menino de Engenho, romance que registra momentos lúdicos de sua infância. Infância essa que Vladimir Carvalho busca apresentar ao espectador na costura de imagens de arquivo com depoimentos de pessoas que participaram da vida do escritor, jornalista e cronista paraibano.
"Foi difícil trabalhar com material de arquivo para esse filme", revelou Vladimir na época da produção. "Zé Lins não foi um homem muito filmado. Quando acho uma foto que seja, essa imagem para mim vira um verdadeiro monumento", apontou o cineasta.
O título do filme, O Engenho de Zé Lins, é um jogo de palavras, segundo Vladimir. "Temos o engenho que significa a fábrica do açúcar e também temos o engenho do autor, sua engenhosidade enquanto romancista", explica Vladimir.
O documentário, única produção local na mostra competitiva de longas-metragens, faz passagens pela vida e obra de Lins do Rego, desde os tempos de sua infância no ambiente que imortalizou em seus romances do ciclo da cana-de-açúcar. Em seguida segue o escritor até a maturidade e glória literária, ao lado de outras manifestações de marcante figura humana, que inclui o homem solidário e afetivo, o amante apaixonado
pelas coisas simples da vida e pelo time do Flamengo.