Para marcar o bicentenário da abolição da escravatura no Império Britânico, que será comemorado no ano que vem, Londres vai abrir sua primeira galeria dedicada ao comércio de escravos.
A co-curadora Caroline Bressey afirmou que se trata da oportunidade ideal para os londrinos encararem um capítulo vergonhoso do passado da capital britânica.
"É um momento difícil de nossa história, mas temos de encará-lo. As lembranças serão desagradáveis, mas elas são necessárias", disse Bressey, cuja mãe é jamaicana.
"Esta é a primeira galeria permanente de Londres dedicada ao comércio de escravos", disse ela. O Museu Docklands, no leste da cidade, pôs em exposição um raro arquivo de documentos de uma fazenda do século XVIII em St. Kitts, no Caribe.
Os papéis, pertencentes a Thomas Mills e seu filho John, listam os nomes dados pelos administradores da fazenda aos escravos africanos, registrando sua idade, sua condição e detalhes sobre o tratamento, a comida e o dinheiro que eles recebiam.
Os arquivos são um instantâneo fascinante do comércio escravocrata com origem em Londres, de onde partiram quase 80 navios para a África ao longo de dois séculos, para comprar 25 mil escravos. Mais de três mil escravos não sobreviveram à viagem para as Américas.
Os navios voltavam para Londres carregados de açúcar, num comércio erguido sobre o sofrimento humano, que foi fundamental para o sucesso econômico do Império Britânico.
Embora a prática tenha sido proibida no dia 25 de março de 1807, o comércio persistiu por muitos anos, e os capitães dos barcos, temendo as multas, não hesitavam em lançar a carga humana no mar quando eram surpreendidos.
Folhear os documentos foi uma experiência emocionante para Burt Caesar, ator, diretor e consultor do museu, com origens em St. Kitts, porque ele viu o nome de um jovem escravo cha mado Caesar.
"A gente sente um nó no estômago", disse ele.
Depois de meses de reflexão, o premiê Tony Blair manifestou "tristeza profunda" pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de escravos. Mas, para a decepção de ativistas, ele não chegou a fazer um pedido de desculpas formal, que poderia gerar a reivindicação de indenizações.
Para a curadora Caroline Bressey, foi uma oportunidade desperdiçada. "Ele devia ter pedido desculpas. A economia estava em primeiro lugar na cabe ça dele. Isso ilustra por que ele não chegou a pedir desculpas".