Um dia depois de a News Corporation ter cancelado o lançamento de um livro e uma entrevista à televisão de O.J. Simpson sobre o assassinato de sua ex-mulher, a irmã dela acusou a empresa, na terça-feira, de ter oferecido dinheiro à sua família para que mantivesse silêncio sobre o polêmico projeto.
A News Corp. admitiu ter oferecido rendimentos do livro e do especial de televisão abortados a parentes de Nicole Brown Simpson e de seu amigo Ronald Goldman, mortos a facadas em 12 de junho de 1994.
Mas, contrariando as declarações da ex-cunhada de O.J. Simpson, Denise Brown, o porta-voz da empresa, Andrew Butcher, insistiu que "nossa oferta não foi acompanhada de condições". "E certamente não houve nenhuma sugestão de nossa parte de que as famílias seriam impedidas de falar sobre o assunto", disse Butcher à Reuters. "Sabemos que elas jamais concordariam com algo assim".
Falando ao programa Today, da NBC, Denise Brown encarou a oferta da News Corp. sob uma ótica mais cínica.
"Eles quiseram nos oferecer milhões de dólares. Mas iam colocar o programa no ar, mesmo assim", disse. "Pensamos: O que estão tentando fazer é comprar nosso silêncio, nos dar esse dinheiro para ficarmos de boca calada".
Brown disse que sua família rejeitou a oferta da News Corp. Não foi possível contatar representantes da família de Ronald Goldman para ouvir sua versão.
Butcher, que negou-se a especificar os valores oferecidos, sugeriu que a intenção da News Corporation foi apenas fazer o que era certo.
"Não vou dizer que a intenção foi deixá-los satisfeitos, porque eles nunca ficariam satisfeitos", afirmou ele. "As famílias deixaram claro que estavam descontentes com o projeto. Estávamos buscando maneiras de ajudá-las. Mas, em lugar disso, concordamos em cancelar o projeto por completo".
A revelação da oferta financeira feita pela News Corp. às famílias das vítimas foi o lance mais recente num empreendimento editorial e televisivo malfadado, que provocou uma enxurrada de críticas sugerindo que a News Corp. pretendia explorar uma tragédia humana para finalidades de lucro.
Numa iniciativa rara, o próprio presidente da News Corp., Rupert Murdoch, anunciou na segunda-feira o cancelamento do livro e da entrevista à TV, na qual Simpson oferecia um relato hipotético de como teria matado sua ex-mulher e Goldman.
O ex-astro do futebol americano sempre afirmou sua inocência. Em 1995, foi absolvido da acusação de ter cometido os assassinatos.
Mas em 1997 uma corte cível o considerou culpado pelas mortes e o condenou a pagar US$ 33,5 milhões às famílias das vítimas, valor que Simpson jurou que não pagará voluntariamente.
Seu novo livro, intitulado Se Eu Tivesse Feito, estava previsto para chegar às livrarias em 30 de novembro, precedido por uma entrevista em duas partes à rede de TV Fox conduzida pela publisher Judith Regan, cuja editora HarperCollins é uma unidade da News Corp., como é a própria Fox.
Além da reação de ultraje público em relação ao livro e ao especial da Fox, a News Corp. enfrentou resistência ao projeto por parte de anunciantes e de suas TVs filiadas, além do fato de que várias livrarias pretendiam boicotar o livro ou doar seus lucros a obras de caridade.
Apesar das especulações de que a entrevista gravada e o manuscrito do livro de Simpson acabariam por ser publicados em outros lugares, Andrew Butcher negou que a News Corp. pretenda levá-los a público.
"Já pedimos a devolução de todos os exemplares do livro enviados a varejistas. Vamos destruí-los, assim como quaisquer outras cópias que tenham sido impressas", disse ele.