Todo Sol mais o Espírito Santo, livro lançado esta semana, em Brasília, é mais um tijolo que ajuda a construir a literatura brasiliense. O autor é Lima Trindade, candango que hoje vive entre livros e viagens Brasília – Salvador, onde faz mestrado em Literatura na Universidade da Bahia. O livro é composto de 13 contos distribuídos em 160 páginas. O texto corre solto, leve e sem sobressaltos, como um carro no Eixão às 3h da manhã de um domingo qualquer.
Essa é a segunda aventura do autor no mundo das páginas impressas. Em 2005, ele já havia lançado o romance Supermercado da Solidão e é difícil dizer o quão baseados em sua vida são os contos; para o autor, “eles são tão autobiográficos quanto a vida é uma ficção”. Ele explica: “Não há como um autor negar a influência da própria subjetividade e de vivências na construção de um texto, seja ele um romance, um conto, um poema ou mesmo um ensaio acadêmico e pretensamente científico”.
Segundo Trindade, “o livro é composto de três partes bastante distintas, que tratam da infância, morte e prazer”. E, para ele, “a maior dificuldade do processo foi quebrar certo preconceito por parte daqueles que julgam não haver literatura em Brasília; enquanto artista, você se vê sozinho”. Brasília está presente no livro. Mesmo quando a autor não cita nominalmente o espaço onde se passa a história, o leitor é capaz de sentir a cidade.
O livro tem ótimos momentos, quando a prosa de Trindade corre descompromissada, como em O Autógrafo, história de dois garotos que vão ao estádio torcer pelo time de coração em uma final e tentar um autógrafo do ídolo. O futebol aliás é tema recorrente no texto de Trindade e volta em contos como A Fé do Racionalismo, a saga de Lionel, que se tornou tão superticioso em relação a como assistia aos jogos de seu time que a cada jogo desempenhava um ritual. As temáticas são variadas, mas nunca fogem do universo pequeno-burguês tipicamente brasileiro.
A maioria dos personagens de Trindade são marginalizados de alguma maneira. “São, talvez, personagens de exceção. Sempre simpatizei com os perdedores, os párias, os insubmissos. Aquele que apenas aceita seu meio social, o mundo, a realidade como esta lhe é apresentada, jamais será agente transformador de nada”, conclui o autor.