A estreia do jovem e aclamado maestro venezuelano Gustavo Dudamel, 28 anos, como diretor musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, no segundo semestre deste ano, propõe reflexões em torno de um novo panorama na música erudita, ou pelo menos, o desenvolvimento dele. Há alguns anos, quase não se encontrava maestros de 30 anos ou menos. Músicos de 20 anos nas orquestras também não eram comuns. Plateias formadas por adolescentes, então, era quase uma utopia. Mas isso mudou. Hoje os jovens dividem com experientes senhores(as) os espaços de teatros e salas em apresentações de música erudita.
A explicação para o fenômeno não tem uma única vertente e pode ser fundamentada por profissionais da área. Algumas dessas pessoas defendem que a tendência é mesmo a de renovação desse cenário. “O que antes era considerado elitista e um programa familiar, hoje sofre grandes mudanças. Há uma postura diferente na atuação da orquestra e dos músicos em relação ao público”, declara o maestro Leandro Carvalho. Aos 33 anos, ele é diretor artístico e um dos fundadores da Orquestra Sinfônica de Mato Grosso. Em 2007, Carvalho foi considerado
um dos dez artistas de maior importância na música clássica da década pelo anuário Viva Música.
As alterações citadas por Carvalho passam pela encomenda de novas peças e inclusão de instrumentos populares nas apresentações. O jovem maestro, que antes de se formar regente estudou violão, defende que peças contemporâneas tendem a aproximar a orquestra do público porque o compositor não está morto. “É claro que os aspectos tradicionais da orquestra e os grandes compositores são fundamentais, mas não só eles. Precisamos pensar em como trazer o espectador para perto da orquestra.”
Para aumentar o contato com o público, a técnica utilizada por Leandro Carvalho é a de conversar com a plateia e explicar, no decorrer do espetáculo, o repertório e a história dos compositores. Em apresentação com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio
Santoro, em outubro, a violinista Fanny Clamagirand chamou a atenção da plateia da Sala Villa-Lobos pelo rosto de traços quase infantis que escondem um dos nomes de referência da nova geração de músicos clássicos franceses com trabalhos destacados mundo afora. Aos 25 anos,
ela compartilha o sucesso de crítica de muitos contemporâneos, mas ainda se diz supressa ao encontrar pessoas “tão novas” em seus concertos.
Público
A pouca idade passa, então, a ser uma nova característica das plateias dos concertos de música clássica. Em meio às poltronas do teatro, osolhos atentos do estudante Mateus Barbosa Rodrigues, 17 anos, chamam a atenção. O adolescente começou a se interessar pela música na igreja que frequenta, onde toca contra-baixo. Fã declarado de música erudita, ele quer estudar Música na universidade e recebe o apoio dos pais para tal. “Eu que carrego meus pais para os concertos, mas se eles não quiserem ir, vou sozinho mesmo”, conta o adolescente ao explicar que não são os pais que o influenciam nesse sentido, “como acontece em grande parte dos casos”.
Mas a interferência dos pais também ajuda a formar um público mais “renovado”, pelo menos, é o que observa Luiz Carlos Costa, assessor de relações para a comunidade da Casa Thomas Jefferson da Asa Sul. Responsável pelo projeto Sextas Culturais (que acontece desde 1987),
ele ressalta a presença de jovens nos recitais realizados na escola de inglês. “Temos casos aqui na Thomas de espectadores que, quando crianças, vinham com os pais e, agora adultos, trazem os próprios filhos”, observa.
Costa pontua a importância da Escola de Música de Brasília para a
construção desse cenário. “Brasília é um celeiro musical, os adolescentes e crianças têm a oportunidade de receber uma formação acadêmica. O jovem no palco acaba atraindo um público mais novo para a plateia também”.
Para o maestro Leandro Carvalho a renovação do público é essencial e deve ser uma preocupação permanente das orquestras e músicos. Ele destaca projetos e ações sociais que proporcionam o desenvolvimento de jovens para esse cenário. “Essas atividades, quando sérias, formam bons músicos e assim o mercado os absorve. É muito interessante, porque os jovens passam a ver essas oportunidades como uma profissão, alimentando o ciclo de remodelação nas orquestras”, pontua.
Oficinas
Em Brasília, além das aulas em cursos de música, adolescentes e crianças podem ter contato com o estilo erudito pelo projeto HarmoniZando Meu Canto, realizado em escolas públicas do Distrito Federal pelo Instituto Accorde Brasil em parceria com a Escola de Música de Brasília.
Com programas que vão além da apresentação de músicos, o projeto une brincadeiras às aulas de apresentação de instrumentos e propõe a harmonia entre a música e o ser humano, expondo também temas recorrentes à formação dos jovens como a não violência e a tolerância.
“Trabalhamos para despertar o gosto pela música clássica, uma vez que ela propicia desenvolvimento global: a melodia afeta o lado sentimental, a harmonia, o intelecto e o ritmo, o físico”, defende a presidente do Instituto Accorde Brasil, Arnely Schulz. Com o HarmoniZando Meu Canto, Schulz quer mesmo é desenvolver a cultura musical, passando pelo comportamento durante o espetáculo, o conhecimento da música erudita e o incentivo da prática desse gênero
musical. “É preciso mostrar para as novas gerações que o estilo erudito existe para assim eles terem a oportunidade de conhecer e descobrir se gostam ou não da música clássica”, finaliza ela.