João Gilberto estava com toda a boa vontade do mundo. Reclamou do som mas disse que tudo bem. Reclamou do ajuste dos óculos e logo concluiu: “Acho que vou tirar.” Tirou e ganhou aplausos da platéia.
A direção da nova Tom Brasil, inaugurada na quinta-feira em São Paulo, teve o bom senso de convidar quase que só gente ligada à música. De Beth Carvalho ao maestro Nelson Aires, de sambistas a regentes de orquestra sinfônica, mais alguns atores e atrizes.
Ele fez uma apresentação rápida, com 18 músicas, sem bis. Começou com Canta Brasil, seguiu com Sem Compromisso e falou de vida e morte.
“O grande Ari Barroso está fazendo cem anos e já não está mais aqui; eu tenho medo de morrer e inveja dos que já passaram pela alfândega da morte”, emendando em Morena Boca de Ouro, do compositor mineiro.
Cantou ainda Caymmi, Geraldo Pereira e saudou São Paulo com uma belíssima versão de Saudosa Maloca.
João tira sempre um coelho da cartola. Desta vez foi a letra pouco sabida de Lígia, a canção de Tom Jobim que tem uma letra diferente daquela que foi gravada. João cantou a letra diferente e não falou “Lígia” nenhuma vez.
O cantor lembrou que por ser baiano, picotou Preconceito, de Wilson Batista, costurando o samba com os versos de Que Reste-t-il de nos Amours, para fazer, em seguida, o melhor número da noite, a bossa Sem Você, que Tom Jobim escreveu com Vinícius.
Ainda de Tom, Retrato em Branco e Preto e Garota de Ipanema, terminando com a Aquarela do Brasil, de Ari Barroso. Convidou Caçulinha para fazer um fundo com ele, ao teclado – para surpresa de todos e, parece, até para surpresa de Caçulinha.
Ficou estranho. Ficou bonito. João sorriu, agradeceu, foi embora. Entrou o DJ Venâncio com o bate-estaca eletrônico aborrecido – por quê?