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JK, desconhecido da juventude

Arquivo Geral

02/01/2006 0h00

JK é mito em Brasília, mas os jovens da terra a que ele deu vida o desconhecem. A constatação é de um dos sobreviventes – o outro é o coronel Afonso Heliodoro – da sua primeira turma de colaboradores políticos, o seu sobrinho Carlos Murilo, que, aos 77 anos, segue lúcido e residindo em Brasília, onde já ocupou cargo executivo no governo distrital. Para Murilo, a minissérie que a TV Globo colocará no ar amanhã será útil também para os adolescentes saberem quem foi o homenageado, “pois a emissora faz isso muito bem e penetra em todas as camadas da sociedade”, diz.
Carlos Murilo, que foi vice-líder do governo JK na Câmara dos Deputados, se declara chocado com a falta de informação dos jovens pelo País afora quando o tema é o ex-presidente. “Já fiz conferências em várias universidades brasileiras e constatei que 70% da audiência só sabia que Juscelino (Kubitschek de Oliveira) foi o presidente que construiu Brasília. Mais nada. Até entendo isso, pois JK foi apagado da memória nacional, por mais de 20 anos, pelos militares que caçaram os seus direitos políticos”, analisa ele, que também foi caçado.
“Realmente, é querer demais que um jovem de 16, 20 anos saiba que JK mudou a relação candidato-eleitorado. Se antes, o contato era via chefes políticos, em 1934, na sua campanha à Câmara Federal, Juscelino percorreu casa por casa, montando a cavalo, para dizer ao povo das regiões (Diamantina-MG), principalmente), onde poderia ter muitos votos, o que pretendia fazer”, acrescenta.
Não há como se fazer qualquer pesquisa sobre JK sem passar antes pelo crivo de Carlos Murilo, que passou a conviver diretamente com o ex-presidente a partir dos seus 16 anos, quando perdeu o pai e foi criado pelo tio, que patrocinou os seus estudos e o colocou para fazer clipping de noticiário jornalístico, quando era prefeito de Belo Horizonte.
Mais tarde, no começo da década de 50, com JK então governador de Minas, o tio o tornou seu oficial de gabinete e o fez morar dentro do Palácio da Liberdade. “Ele colocou uma campainha ligando o seu gabinete ao meu quarto e, freqüentemente, me acordava às seis horas da manhã, convocando-me para acompanhá-lo às inspeções de obras. JK era incansável”, lembra Murilo, lamentando: “Pena que não há como a TV contar tudo”.
Carlos Murilo não leu a sinopse do programa global sobre JK, mas está curioso para ver se será lembrada a fase em que a UDN (União Democrática Nacional), liderada pelo deputado Carlos Lacerda, tentou, por três vezes, parar a construção de Brasília. “Foi terrível. A bancada mineira do PSD (Partido Social Democrático), que apoiava JK, bem como a própria UDN, tinha parlamentares verdadeiros luminares do Congresso Nacional, como José Maria de Alkimin, Tancredo Neves, Israel Pinheiro, Magalhães Pinto, Oscar Corrêa, Milton Campos, Pedro Aleixo, Ovídio de Abreu e Paulo Pinheiro Chaves, entre outros. Eu era o mais novo da turma e JK preferiu que eu fosse vice-líder, fazendo a ponte entre ele e os deputados que o pressionavam por verbas para seus estados. Como o Congresso funcionava no Rio de Janeiro, a tática da oposição liderada por Lacerda era convocar peças-chave da construção da futura capital, entre eles Niemeyer (Oscar, arquiteto) e Lúcio Costa (urbanista), para deporem e reduzir o ritmo das obras. Então, JK chamou Jango (João Goulart, seu vice-presidente) e a bancada do PSD para contra-atacar. A UDN tinha 80 deputados que não completavam um terço dos 326 votos da Câmara Federal de 1958. Se conseguisse votos suficientes para o seu intento, Brasília não existiria hoje. E andou perto disso. Certa vez, a turma do Lacerda, que precisava de 113 votos, conseguiu 117, ludibriando parlamentares de outros partidos, que nem sabiam o que tinham assinado. Fomos para a pancada, com o apoio do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Era tudo ou nada. Sabe quem foi fundamental em nosso favor? Antônio Carlos Magalhães (hoje senador do PFL). Ele era um jovem deputado da UDN, com grande liderança sobre os colegas nordestinos. Nos ajudou a retirar mais de 40 assinaturas para não sair a CPI que pararia os trabalhos no Planalto Central, porque seu pai era muito amigo de JK. Deixamos pasmo o deputado José Bonifácio Lafayette de Andrada, o Zezinho, que ficou estático ao ver que lhe faltava uma assinatura para matar Brasília. E, depois daquela, a UDN desistiu”, lembra Murilo.
Outro fato que Carlos Murilo gostaria de ver na minissérie global seria a batalha pela votação das leis orgânicas de Brasília e do Estado da Guanabara. O ministro da Justiça, Armando Falcão, queria ser o interventor (governador provisório) do novo estado, mas a esquerda do PTB o odiava. Março de 1961 estava acabando e JK precisava de unidade em sua base de sustentação parlamentar para inaugurar Brasília. “O jeito foi fazer uma jogada meio louca. O deputado Abelardo Jurema era o líder de JK na Câmara, mas fui eu quem pegou no telefone para falar com o presidente, pois era seu sobrinho. Como o deputado que fosse nomeado interventor da Guanabara perderia o restante do mandato de dois anos, o PTB exigia que o cargo fosse de governador provisório. Vendo que só assim o partido se compactaria, o relator das duas leis orgânicas, deputado Santiago Dantas, trocou a palavra interventor por governador. Só assim JK inaugurou Brasília”, lembra Carlos Murilo, que pretende acompanhar toda a minissérie da Globo.

“JK foi apagado da memória nacional, por 20 anos, pelos militares que caçaram os seus direitos políticos”

Carlos Murilo,
sobrinho e assessor de JK

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    JK, desconhecido da juventude

    Arquivo Geral

    02/01/2006 0h00

    JK é mito em Brasília, mas os jovens da terra a que ele deu vida o desconhecem. A constatação é de um dos sobreviventes – o outro é o coronel Afonso Heliodoro – da sua primeira turma de colaboradores políticos, o seu sobrinho Carlos Murilo, que, aos 77 anos, segue lúcido e residindo em Brasília, onde já ocupou cargo executivo no governo distrital. Para Murilo, a minissérie que a TV Globo colocará no ar amanhã será útil também para os adolescentes saberem quem foi o homenageado, “pois a emissora faz isso muito bem e penetra em todas as camadas da sociedade”, diz.
    Carlos Murilo, que foi vice-líder do governo JK na Câmara dos Deputados, se declara chocado com a falta de informação dos jovens pelo País afora quando o tema é o ex-presidente. “Já fiz conferências em várias universidades brasileiras e constatei que 70% da audiência só sabia que Juscelino (Kubitschek de Oliveira) foi o presidente que construiu Brasília. Mais nada. Até entendo isso, pois JK foi apagado da memória nacional, por mais de 20 anos, pelos militares que caçaram os seus direitos políticos”, analisa ele, que também foi caçado.
    “Realmente, é querer demais que um jovem de 16, 20 anos saiba que JK mudou a relação candidato-eleitorado. Se antes, o contato era via chefes políticos, em 1934, na sua campanha à Câmara Federal, Juscelino percorreu casa por casa, montando a cavalo, para dizer ao povo das regiões (Diamantina-MG), principalmente), onde poderia ter muitos votos, o que pretendia fazer”, acrescenta.
    Não há como se fazer qualquer pesquisa sobre JK sem passar antes pelo crivo de Carlos Murilo, que passou a conviver diretamente com o ex-presidente a partir dos seus 16 anos, quando perdeu o pai e foi criado pelo tio, que patrocinou os seus estudos e o colocou para fazer clipping de noticiário jornalístico, quando era prefeito de Belo Horizonte.
    Mais tarde, no começo da década de 50, com JK então governador de Minas, o tio o tornou seu oficial de gabinete e o fez morar dentro do Palácio da Liberdade. “Ele colocou uma campainha ligando o seu gabinete ao meu quarto e, freqüentemente, me acordava às seis horas da manhã, convocando-me para acompanhá-lo às inspeções de obras. JK era incansável”, lembra Murilo, lamentando: “Pena que não há como a TV contar tudo”.
    Carlos Murilo não leu a sinopse do programa global sobre JK, mas está curioso para ver se será lembrada a fase em que a UDN (União Democrática Nacional), liderada pelo deputado Carlos Lacerda, tentou, por três vezes, parar a construção de Brasília. “Foi terrível. A bancada mineira do PSD (Partido Social Democrático), que apoiava JK, bem como a própria UDN, tinha parlamentares verdadeiros luminares do Congresso Nacional, como José Maria de Alkimin, Tancredo Neves, Israel Pinheiro, Magalhães Pinto, Oscar Corrêa, Milton Campos, Pedro Aleixo, Ovídio de Abreu e Paulo Pinheiro Chaves, entre outros. Eu era o mais novo da turma e JK preferiu que eu fosse vice-líder, fazendo a ponte entre ele e os deputados que o pressionavam por verbas para seus estados. Como o Congresso funcionava no Rio de Janeiro, a tática da oposição liderada por Lacerda era convocar peças-chave da construção da futura capital, entre eles Niemeyer (Oscar, arquiteto) e Lúcio Costa (urbanista), para deporem e reduzir o ritmo das obras. Então, JK chamou Jango (João Goulart, seu vice-presidente) e a bancada do PSD para contra-atacar. A UDN tinha 80 deputados que não completavam um terço dos 326 votos da Câmara Federal de 1958. Se conseguisse votos suficientes para o seu intento, Brasília não existiria hoje. E andou perto disso. Certa vez, a turma do Lacerda, que precisava de 113 votos, conseguiu 117, ludibriando parlamentares de outros partidos, que nem sabiam o que tinham assinado. Fomos para a pancada, com o apoio do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Era tudo ou nada. Sabe quem foi fundamental em nosso favor? Antônio Carlos Magalhães (hoje senador do PFL). Ele era um jovem deputado da UDN, com grande liderança sobre os colegas nordestinos. Nos ajudou a retirar mais de 40 assinaturas para não sair a CPI que pararia os trabalhos no Planalto Central, porque seu pai era muito amigo de JK. Deixamos pasmo o deputado José Bonifácio Lafayette de Andrada, o Zezinho, que ficou estático ao ver que lhe faltava uma assinatura para matar Brasília. E, depois daquela, a UDN desistiu”, lembra Murilo.
    Outro fato que Carlos Murilo gostaria de ver na minissérie global seria a batalha pela votação das leis orgânicas de Brasília e do Estado da Guanabara. O ministro da Justiça, Armando Falcão, queria ser o interventor (governador provisório) do novo estado, mas a esquerda do PTB o odiava. Março de 1961 estava acabando e JK precisava de unidade em sua base de sustentação parlamentar para inaugurar Brasília. “O jeito foi fazer uma jogada meio louca. O deputado Abelardo Jurema era o líder de JK na Câmara, mas fui eu quem pegou no telefone para falar com o presidente, pois era seu sobrinho. Como o deputado que fosse nomeado interventor da Guanabara perderia o restante do mandato de dois anos, o PTB exigia que o cargo fosse de governador provisório. Vendo que só assim o partido se compactaria, o relator das duas leis orgânicas, deputado Santiago Dantas, trocou a palavra interventor por governador. Só assim JK inaugurou Brasília”, lembra Carlos Murilo, que pretende acompanhar toda a minissérie da Globo.

    “JK foi apagado da memória nacional, por 20 anos, pelos militares que caçaram os seus direitos políticos”

    Carlos Murilo,
    sobrinho e assessor de JK

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