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Intrigas expulsam irmãos do Alto Xingu

Arquivo Geral

10/12/2005 0h00

Quando Orlando, Cláudio e Leonardo deixaram São Paulo, em outubro de 1943, eles pretendiam chegar à Ilha do Bananal (MT). Mas, assim que souberam da Expedição Roncador-Xingu, foram atrás dela, pedir emprego, no que não foram aceitos por não serem analfabetos e nem ignorantes, o perfil dos selecionados pelo coronel Vanique. Admitidos na Fundação Brasil Central só em fevereiro de 1944, pelo chefe da base de Aragarças, o engenheiro Francisco Lane, os Villas Boas incorporaram a segunda expedição rumo à base do Rio das Mortes, pegando no facão, na foice, no machado sem nenhum constrangimento. E, por um ano, ficaram anônimos fazendo trabalhos de reconhecimento da região de Xavantina, onde participaram também da abertura de uma pista para aviação e da preparação da partida rumo à região do Rio Xingu.

imprensaEntão, pela segunda vez, o destino contribuiu para a saga dos Villas Boas virar lenda. Um grupo de 18 engenheiros paulistas se uniu à expedição, em junho de 1945, e, em Aragarças, o chefe do grupo, Manoel Rodrigues Ferreira, soube que os irmãos Villas Boas – que haviam sido seus colegas de colégio – estavam na base que ficava a 300 quilômetros de distância. Aproveitando a passagem de um repórter do jornal carioca Correio da Manhã, Rodrigues Ferreira pediu-lhe que, ao chegar em Xavantina, entrevistasse seu amigo Orlando, pois a imprensa só noticiava o que saísse do ministro João Alberto e do coronel Vanique.

Como os Villas Boas tinham liderança e nível cultural acima dos roceiros da expedição, nas férias do coronel Vanique, Orlando ficou chefiando a base do Rio das Mortes. Foi então que ele reencontrou-se com o companheiro dos tempos de escola, que também escrevia na imprensa paulistana. Para tirar os velhos amigos do anonimato, Ferreira insistiu com o jornal paulistano A Gazeta para transformar Orlando em seu correspondente junto à expedição. Conseguiu e o nivelou em importância a Vanique, pelo cargo que passara também a ocupar, de representantee de um grande jornal paulista. Perto do Natal de 1945, Ferreira Rodrigues conseguiu que A Gazeta incluísse no início da reportagem uma alusão à cidadania paulista de Orlando e à referência de integrante da expedição que desbravava o Brasil selvagem. Enquanto isso, Cláudio e Leonardo chefiavam a vanguarda dos exploradores que se embrenhavam pela selva.

campo de aviaçãoTornando-se jornalista, descrevendo ataques de índios, temporadas de chuvas, aberturas de picadas na selva, notícias que Orlando colhia também com seus irmãos na frente de exploração, os Villas Boas ganharam notoriedade nacional. Até então, eles ainda não eram sertanistas, pois sua missão não visava a pacificar índios, e à exceção dos bravios Xavante, as demais tribos do Xingu já estavam pacificadas. Além do mais, haviam sertanistas do então Serviço de Proteção ao Índio, hoje Funai, para ajudá-los a passar pelas terras onde habitavam tribos como Trumais, Camaiurá, Iaualapiti, Uaurá, Aueti, Meinaco, Uatipu, Suva, Calapalo, Cuicuru e Nufucuá. Assim, a expedição chegou ao Alto Xingu, de onde se pretendia atingir o Rio Amazonas. Montou-se ali uma base, com campo de aviação, o que fez os Villas Boas passarem a viver cercados por cientistas, políticos, médicos, professores universitários, antropólogos, artistas, escritores e jornalistas do mundo inteiro, em busca de conhecimento de índios sem contato com a civilização. Na maioria dos casos, eram pessoas influentes de uma esquerda política que os promovia na imprensa, principalmente a partir de 1948, quando o chefe da expedição, o coronel Vanique, deixou o cargo e Orlando o substituiu.

O trabalho dos Villas Boas, defendendo os índios diante das ameaças do homem branco, e lhes dando tudo o que precisavam, transformou-os em mitos para os selvagens, para quem eles eram a mais alta instância do ser humano, pois os índios, que desconheciam a organização político-administrativa de um Estado, não sabiam que seus protetores eram meros servidores daquele.

repressãoEm maio de 1952, o presidente Getúlio Vargas propôs ao Congresso Nacional a criação do Parque Indígena do Xingu, só oficializado no governo Jânio Quadros, em 1961. Com o passar do tempo, os Villa Boas tornaram-se tão poderosos na vasta área xinguana que passaram a preocupar os governos militares brasileiros pós-1964. Começou-se, então, a procurar um meio de tirá-los do Alto Xingu. Como os generais em Brasília temiam a opinião internacional e não ousavam demiti-los, a saída foi enviar agentes da repressão para jogar os índios contra os três irmãos. Conseguiram, fazendo primeiro a cabeça dos Kaiabi, no sentido de que seus protetores os enganavam. E, após 32 anos longe da civilização, os Villas Boas foram expulsos do Xingu, cinco anos depois de serem indicados ao Prêmio Nobel da Paz.

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    10/12/2005 0h00

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    imprensaEntão, pela segunda vez, o destino contribuiu para a saga dos Villas Boas virar lenda. Um grupo de 18 engenheiros paulistas se uniu à expedição, em junho de 1945, e, em Aragarças, o chefe do grupo, Manoel Rodrigues Ferreira, soube que os irmãos Villas Boas – que haviam sido seus colegas de colégio – estavam na base que ficava a 300 quilômetros de distância. Aproveitando a passagem de um repórter do jornal carioca Correio da Manhã, Rodrigues Ferreira pediu-lhe que, ao chegar em Xavantina, entrevistasse seu amigo Orlando, pois a imprensa só noticiava o que saísse do ministro João Alberto e do coronel Vanique.

    Como os Villas Boas tinham liderança e nível cultural acima dos roceiros da expedição, nas férias do coronel Vanique, Orlando ficou chefiando a base do Rio das Mortes. Foi então que ele reencontrou-se com o companheiro dos tempos de escola, que também escrevia na imprensa paulistana. Para tirar os velhos amigos do anonimato, Ferreira insistiu com o jornal paulistano A Gazeta para transformar Orlando em seu correspondente junto à expedição. Conseguiu e o nivelou em importância a Vanique, pelo cargo que passara também a ocupar, de representantee de um grande jornal paulista. Perto do Natal de 1945, Ferreira Rodrigues conseguiu que A Gazeta incluísse no início da reportagem uma alusão à cidadania paulista de Orlando e à referência de integrante da expedição que desbravava o Brasil selvagem. Enquanto isso, Cláudio e Leonardo chefiavam a vanguarda dos exploradores que se embrenhavam pela selva.

    campo de aviaçãoTornando-se jornalista, descrevendo ataques de índios, temporadas de chuvas, aberturas de picadas na selva, notícias que Orlando colhia também com seus irmãos na frente de exploração, os Villas Boas ganharam notoriedade nacional. Até então, eles ainda não eram sertanistas, pois sua missão não visava a pacificar índios, e à exceção dos bravios Xavante, as demais tribos do Xingu já estavam pacificadas. Além do mais, haviam sertanistas do então Serviço de Proteção ao Índio, hoje Funai, para ajudá-los a passar pelas terras onde habitavam tribos como Trumais, Camaiurá, Iaualapiti, Uaurá, Aueti, Meinaco, Uatipu, Suva, Calapalo, Cuicuru e Nufucuá. Assim, a expedição chegou ao Alto Xingu, de onde se pretendia atingir o Rio Amazonas. Montou-se ali uma base, com campo de aviação, o que fez os Villas Boas passarem a viver cercados por cientistas, políticos, médicos, professores universitários, antropólogos, artistas, escritores e jornalistas do mundo inteiro, em busca de conhecimento de índios sem contato com a civilização. Na maioria dos casos, eram pessoas influentes de uma esquerda política que os promovia na imprensa, principalmente a partir de 1948, quando o chefe da expedição, o coronel Vanique, deixou o cargo e Orlando o substituiu.

    O trabalho dos Villas Boas, defendendo os índios diante das ameaças do homem branco, e lhes dando tudo o que precisavam, transformou-os em mitos para os selvagens, para quem eles eram a mais alta instância do ser humano, pois os índios, que desconheciam a organização político-administrativa de um Estado, não sabiam que seus protetores eram meros servidores daquele.

    repressãoEm maio de 1952, o presidente Getúlio Vargas propôs ao Congresso Nacional a criação do Parque Indígena do Xingu, só oficializado no governo Jânio Quadros, em 1961. Com o passar do tempo, os Villa Boas tornaram-se tão poderosos na vasta área xinguana que passaram a preocupar os governos militares brasileiros pós-1964. Começou-se, então, a procurar um meio de tirá-los do Alto Xingu. Como os generais em Brasília temiam a opinião internacional e não ousavam demiti-los, a saída foi enviar agentes da repressão para jogar os índios contra os três irmãos. Conseguiram, fazendo primeiro a cabeça dos Kaiabi, no sentido de que seus protetores os enganavam. E, após 32 anos longe da civilização, os Villas Boas foram expulsos do Xingu, cinco anos depois de serem indicados ao Prêmio Nobel da Paz.

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