No final dos anos 70, reportagem de uma grande revista estampava na manchete: “Os punks que se cuidem”. Tratava-se de uma entrevista com Aracy de Almeida – e a frase, naturalmente, era dela. Faz todo sentido. Aracy, enquanto viveu, sempre foi visionária em suas concepções.
E ninguém melhor do que o músico Hermínio Bello de Carvalho, amigo íntimo da cantora e irreverente ex-jurada de televisão, para contar um pouco do vasto mundo de Aracy. É o que ele faz em Araca, Arquiduquesa do Encantado, lançamento da Editora Folha Seca.
Aficcionados por biografias poderão estranhar o volume do livro, que não chega a 90 páginas em seu total. Romper tal resistência, no entanto, é convite para uma rica degustação. Hermínio, aliás, faz questão de dizer que sua obra não é uma biografia.
Pouco importa. Especialmente os que se lembram de Aracy, falecida em 1988, já começa gostando da história. “Quem a visse na rua colhendo os frutos de jurada mais bem-paga da televisão, revidando desaforos ou contraditoriamente devolvendo o acarinhamento do povo que idolatrava seus destemperos, talvez não suspeitasse que, sob aquele manto de aparente azedume, estava uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos”, relata ele logo no início do livro.
Antes de qualquer outra coisa, Aracy de Almeida foi uma mulher revolucionária para seu tempo. Falava palavrão, cantava na noite, tomava todas, fumava charuto – também era chegada à Cannabis Sativa, normalmente guardando na manga da blusa os cigarrinhos enrolados, prontos para o consumo –, usava cuecas (são comprovadamente mais confortáveis do que as calcinhas) e era leitora contumaz do Velho Testamento, especialmente depois de se converter ao judaísmo.
“Convém explicar que Araca era uma espécie de precursora natural dos grandes transgressores que ditavam mudanças comportamentais que alteravam a simetria do Universo”, descreve o autor nas primeiras páginas. “Foi existencialista antes de Sartre e Simone de Beauvoir, foi hippie bem antes dos abalos provocados por Woodstock…”.
Não por acaso, nos pilares do Tropicalismo, Caetano Veloso fez questão de homenagear Aracy de Almeida. E ela, que nunca foi exatamente uma pessoa de muitos ídolos, também gostava muito dele. “Se você fosse Jesus, quais os apóstolos da MPB que você convidaria para sentar-se à mesa?”, perguntou-lhe Hermínio certa vez. “Caetano, Noel, Wilson Batista, Carlos Imperial e José Fernandes”, respondeu, no ato.
Apesar da excelente voz, a melhor intérprete de Último Desejo, de Noel Rosa, não viveu seus últimos anos como cantora. A mídia fez dela, atenta Hermínio, “aquele estereótipo que a televisão exacerbara para consumo das massas, exposto cruelmente como um ser humano intratável”. Perdeu quem acreditou que Aracy era só isso. Hoje seria seu aniversário de 90 anos. Em algum lugar, canecas hão de tilintar, comemorando.