O brasileiro consome diariamente mais do que quatro vezes a quantidade de sal considerada segura por órgãos de saúde do mundo inteiro, visando à prevenção da hipertensão. Nos Estados Unidos, é consenso que a ingestão de sal não deve ultrapassar 3,8 g por dia (meia colher de chá, aproximadamente). Aqui, a média de consumo é de 15 g diárias; na Região Nordeste, chega a 20 g por dia.
Os números nacionais foram divulgados na semana passada, durante o 20º Congresso Mundial de Hipertensão, que reuniu, em São Paulo, 2.500 especialistas de todo o mundo. A recomendação dos especialistas brasileiros para hipertensos e para quem tem predisposição à pressão alta é ingerir, no máximo, 6 g de sal por dia. A diferença entre a orientação americana e a brasileira, diz o nefrologista Décio Mion, da Liga de Hipertensão do Hospital das Clínicas, de São Paulo, ocorre porque aqui se levou em conta a quantidade de sal própria dos alimentos. “Mesmo sem adicionar sal na comida, o brasileiro já consome de 2 g a 3 g diariamente.”
São 27 milhões de hipertensos no Brasil, o que corresponde a 25% da população adulta, diz Mion. Mas a maioria não sabe que tem a doença, também conhecida como o “assassino silencioso”, pois pode ser assintomática por anos. Por isso, a discussão mais importante aqui é sobre como fazer o hipertenso aderir ao tratamento, o que não ocorre nem quando ele é médico.
No ano passado, Mion coordenou um estudo sobre a forma de os médicos do HC lidarem com a sua pressão arterial. O resultado é alarmante: mais da metade (60%) dos que sabiam ter pressão alta não se tratava. “Apesar de saberem muito bem os riscos do problema, simplesmente ignoravam a pressão alta. O que podemos concluir é que a falta de controle da pressão não é inerente a condições financeiras e ao conhecimento. Não sabemos quais os fatores determinantes da não-adesão ao tratamento e do controle, mas o estudo mostrou que não é a classe social que determina isso.”