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Guitarras afinadas para depor a tradição da MPB

Arquivo Geral

17/06/2003 0h00

A Era dos Festivais é um livro que começa morno como os primeiros concursos musicais, lembrando as antigas disputas carnavalescas e chegando até a TV Record que promoveu um insosso I Festival em 1960, idealizado por Tito Fleury, mas que não aconteceu. A idade dos festivais começou de verdade numa emissora concorrente, a TV Excelsior, em 1965, já com Solano Ribeiro à frente e com a primeira música a ser lembrada até hoje a participar de um festival, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina.

A TV Excelsior ainda produziria mais um festival, em 1966 – vencido por Porta Estandarte, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, e interpretado por Tuca e Airto Moreira –, antes que a TV Record acordasse. Quando acordou, realizou a maior disputa cultural já vivida pelo país: a contenda entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. O clima dessa disputa é narrado com detalhes, mostrando as reações do público, o medo de Vandré ver um Jair Rodrigues sempre brincalhão cantando sua música séria, a voz de Nara Leão que não conseguia se sobrepor ao dobrado da bandinha.

E culmina com a salomônica decisão de empatar a decisão. Chico Buarque disse que não subiria no palco para receber o prêmio se sua canção vencesse Disparada, como de fato era a vontade do público e dos jurados. Foi a primeira marmelada provocada por um vencedor – provavelmente a única. No mesmo ano, mais um festival foi realizado, pela TV Rio, mas com menos impacto, foi vencido por Saveiros, de Dori Caymmi e Nelson Motta, interpretada por Nana Caymmi.

Mas era a TV Record que tinha sempre as melhores canções. Em 1967, os tropicalistas tomaram o ambiente de assalto, ousando pôr guitarras na música brasileira, provocando protestos, mas chegando entre os primeiros na disputa, ainda vencida pela tradição, com Ponteio, interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha, à frente.

Em segundo, Gilberto Gil com Domingo no Parque, em terceiro Chico Buarque e MPB4 com Roda Viva, em quarto Caetano Veloso com Alegria Alegria, e em quinto Roberto Carlos, com Maria, Carnaval e Cinzas. Era a primeira vez que os próprios compositores cantavam suas músicas; até então os intérpretes eram escolhidos pela direção dos festivais.

No Rio, um cantor da noite paulistana, Milton Nascimento, tinha classificado três canções, e venceria com uma delas, Travessia.

A partir desse momento, os militares que já tinham tomado conta do País, passaram a querer mandar também na música. Sabiá, bela canção de Chico e Tom Jobim, venceria o Festival de 68, mas os militares não gostaram nada do desafio feito a eles pela marcial Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, que seria proibida logo depois do festival. A presença fardada foi se instalando, principalmente a partir do momento em que a TV Globo resolveu também realizar seus festivais.

Era o ocaso musical do período, marcado pelo locaute dos principais compositores e pela surra no jurado e sociólogo Roberto Freire. Outras tentativas foram feitas mais tarde, talentos como Djavan, Gonzaguinha e Ivan Lins seriam revelados, mas os festivais, que se espalharam por todo o País, promovidos por prefeituras ou escolas, nunca mais seriam os mesmos.

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    17/06/2003 0h00

    A Era dos Festivais é um livro que começa morno como os primeiros concursos musicais, lembrando as antigas disputas carnavalescas e chegando até a TV Record que promoveu um insosso I Festival em 1960, idealizado por Tito Fleury, mas que não aconteceu. A idade dos festivais começou de verdade numa emissora concorrente, a TV Excelsior, em 1965, já com Solano Ribeiro à frente e com a primeira música a ser lembrada até hoje a participar de um festival, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina.

    A TV Excelsior ainda produziria mais um festival, em 1966 – vencido por Porta Estandarte, de Geraldo Vandré e Fernando Lona, e interpretado por Tuca e Airto Moreira –, antes que a TV Record acordasse. Quando acordou, realizou a maior disputa cultural já vivida pelo país: a contenda entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. O clima dessa disputa é narrado com detalhes, mostrando as reações do público, o medo de Vandré ver um Jair Rodrigues sempre brincalhão cantando sua música séria, a voz de Nara Leão que não conseguia se sobrepor ao dobrado da bandinha.

    E culmina com a salomônica decisão de empatar a decisão. Chico Buarque disse que não subiria no palco para receber o prêmio se sua canção vencesse Disparada, como de fato era a vontade do público e dos jurados. Foi a primeira marmelada provocada por um vencedor – provavelmente a única. No mesmo ano, mais um festival foi realizado, pela TV Rio, mas com menos impacto, foi vencido por Saveiros, de Dori Caymmi e Nelson Motta, interpretada por Nana Caymmi.

    Mas era a TV Record que tinha sempre as melhores canções. Em 1967, os tropicalistas tomaram o ambiente de assalto, ousando pôr guitarras na música brasileira, provocando protestos, mas chegando entre os primeiros na disputa, ainda vencida pela tradição, com Ponteio, interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha, à frente.

    Em segundo, Gilberto Gil com Domingo no Parque, em terceiro Chico Buarque e MPB4 com Roda Viva, em quarto Caetano Veloso com Alegria Alegria, e em quinto Roberto Carlos, com Maria, Carnaval e Cinzas. Era a primeira vez que os próprios compositores cantavam suas músicas; até então os intérpretes eram escolhidos pela direção dos festivais.

    No Rio, um cantor da noite paulistana, Milton Nascimento, tinha classificado três canções, e venceria com uma delas, Travessia.

    A partir desse momento, os militares que já tinham tomado conta do País, passaram a querer mandar também na música. Sabiá, bela canção de Chico e Tom Jobim, venceria o Festival de 68, mas os militares não gostaram nada do desafio feito a eles pela marcial Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, que seria proibida logo depois do festival. A presença fardada foi se instalando, principalmente a partir do momento em que a TV Globo resolveu também realizar seus festivais.

    Era o ocaso musical do período, marcado pelo locaute dos principais compositores e pela surra no jurado e sociólogo Roberto Freire. Outras tentativas foram feitas mais tarde, talentos como Djavan, Gonzaguinha e Ivan Lins seriam revelados, mas os festivais, que se espalharam por todo o País, promovidos por prefeituras ou escolas, nunca mais seriam os mesmos.

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