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GÊNIOS INDOMÁVEIS

Arquivo Geral

28/02/2006 0h00

Há pessoas que cruzam pelas nossas fronteiras informativas carregando a admirabilidade de valores que transcendem para as substâncias da eternidade. Muitas delas, no entanto, portam também, em suas cadeias genéticas, comportamentos completamente indomáveis, incompreensíveis ou, no mínimo, discutíveis, a julgar pela genialidade que os transformou em lendas.
No século passado, quando viveu o russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov, doutor em bioquímica, mestre na ficção científica, ele já projetava um mundo repleto de robôs na década de 1930, quando a palavra nem constava nos dicionários. Em 1950, se antecipou 13 anos no tempo e descreveu o que seria um passeio espacial. E aconteceu exatamente como ele imaginara. Da mesma forma como previu a invasão de nossas vidas pelos computadores.
Agora, entenda esse cérebro. Mesmo antevendo o homem diante de um computador, quando esse tempo chegou, Asimov execrou a tal geringonça do futuro e só usava a velha máquina de datilografia, para espanto dos amigos. E tinha uma explicação esquisita: “Faço na ficção o que não faço fora dela”, dizia. E pior: embora projetasse passeios espaciais, saía no tapa se alguém tentasse embarcá-lo em um avião. Afinal, o que pensar sobre quem vivia nas alturas e jamais visitou o terraço do apartamento onde morava, em Nova York, só porque ficava no 33º andar? Asimov viveu assim por 72 anos. Publicou mais de 260 livros.
Herói Meio complicado assim, como Isaac Asimov, era outro gênio da ficção científica, o norte-americano Lafyette Ronald Hubbard (1911-1986), apontado pelo Guinness Book como o autor mais traduzido do planeta. Visto como uma escala entre Asimov e o francês Júlio Verne, foi condecorado como herói da Segunda Guerra e, quando não usava o cérebro para maravilhar o mundo com a informação ficcional científica, escrevia histórias de terror ou criava uma religião. Quem deveria lhe pagar um bom copo de vinho seria o físico alemão Albert Einstein.
Se a Teoria da Relatividade (sobre a dilatação do tempo) hoje é considerada a principal do século 20, mas antes fazia seu pai encarar o desdém de sua patota, foi graças a Hubbard que ela se popularizou. No início da década de 30, Hubbard, que cursava engenharia, decidiu ir a fundo na tese do alemão. Dominou toda a complexidade do assunto e, em 1949, se deu por satisfeito. Lançou o livro Rumo às Estrelas, contribuindo decisivamente para Einstein mostrar a sua língua.
Quem pesquisa a vida de Hubbard espanta-se com as suas excentricidades. Há até quem o classifique de megalomaníaco. Um dos seus filhos chegou a classificá-lo como um perfeito “mala”. Também, quem o mandou declarar (em 1963) que havia visitado o Céu e que a sua existência física já durava 43 trilhões de anos? Muita relatividade para um corpo só, não?
TerrorAo recuar até o final do século 19 e bater às portas da casa de Karl Marx, filósofo, jornalista e escritor alemão que viveu 64 anos, a tempo de ser o principal ideólogo do comunismo, encontra-se uma personalidade esquisita. Não entre sem tocar a campainha. Da porta para dentro, Marx era um terror. Batia na cara da mulher (teve três), assombrava os sete filhos e se envolvia com governantas e empregadas, sem nenhum pudor. Pouco? Da porta pra fora, nada de utopias. Rabo de saia que pintasse pela frente ele socializava na primeira cama disponível. Mais? Quem quisesse brigar com Marx bastava chamá-lo para trabalhar. Preferia viver à custa dos amigos, principalmente de Frederich Engels, outro teólogo do comunismo.
Após visitar o pai de uma variante política que gerou um império protegido por uma cortina de ferro, não custa nada voar no tempo para um século adiante e descobrir o que andou fazendo um dos seus “filhotes políticos”, ou seja, aquele que foi considerado o maior filósofo de sua época, o francês Jean-Paul Sartre, que viveu 76 anos. Consagrado pelas idéias (também políticas) que legou ao mundo, por intermédio de livros aplaudidíssimos, como A Idade da Razão, O Muro e Questão de Método, só para citar poucos, Sartre lutou contra Adolf Hitler, servindo aos “aliados” como meteorologista durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, foi preso pelos nazistas, mas escapou e se integrou à “Resistência Francesa”.
Sabem o que ele fez depois da guerra? Passou a defender causas contra as quais lutara, chegando a declarar que não havia censura na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E ainda defendeu o tirânico regime político chinês de Mao Tsé-Tung. Resultado: de pop star da filosofia armou o barraco para virar uma anacronia amparada por pouquíssimos intelectuais.
Colombo Dilapidar reputações não foi privilégio apenas de Jean-Paul Sartre. Muito antes dele, no longínquo l493, o navegador genovês Cristóvão Colombo já aprontava coisas bem piores. De descobridor da América, terminou na cadeia, levado a ferros para as grades, em Sevilha, pelo interventor Francisco Bobadilha, devido a sua desastrosa administração do mundo novo, quando assumiu a teimosa maluquice de achar que tudo o que pisasse seria uma continuação do Oriente, descrito dois séculos antes pelo aventureiro veneziano Marco Pólo.
Gênio da navegação, intrépido, Colombo perturbou os portugueses, ingleses e franceses, com o seu projeto de levá-lo até as riquezas do comércio das Índias, confiando no cosmógrafo florentino Paolo Toscanellim, que colocava a Europa e o Extremo Oriente relativamente próximos, via Mar Oceano. Sua sorte foi que, no castelo espanhol de Fernando de Aragão e de Isabel de Castela havia muito ciúme dos feitos dos vizinhos de Lisboa. Deram-lhe duas caravelas e uma nau. Colombo bateu o recorde de permanência no mar, dois meses, e voltou à Espanha coberto de glórias.
A competência navegatória de Colombo correspondia à sua indomável teimosia. Foi graças ao seu relatório, garantindo a Fernando e a Isabel que, dificilmente, haveria mais terras a descobrir num espaço entre 700 a 2.540 km do arquipélago do Cabo Verde, que a Espanha perdeu o Brasil para Portugal.
Bem informado pelos espiões que espalhava pelo mundo afora, D. João II, rei de Portugal, conhecia bem Colombo e sentiu-se ludibriado pelas suas descobertas, cujas terras deveriam pertencer a ele, pelo tratado de Alcáçovas/Toledo, de 1479, quando o papa Alexandre VI, mediador do mundo católico, aplicou um golpe nos portugueses. D. João aproveitou-se da garantia dada aos espanhóis pelo genovês e dobrou a Espanha a assinar o Tratado de Tordesilhas, em 1494. Ele já tinha a certeza de que na parte sul do Mar Oceano havia umas terras onde se plantando tudo daria.

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