As pinturas surrealistas de Salvador Dalí estão entre as mais imediatamente reconhecíveis no mundo das artes plásticas, mas o papel de Dalí no cinema é pouco conhecido e a galeria Tate Modern, de Londres, prepara uma grande exposição para destacar esse aspecto de seu trabalho artístico.
Intitulada Dali & Film (Dalí e o Cinema), a exposição, que deve ser um dos destaques do verão londrino, vai incluir pinturas, esculturas e documentos do célebre artista espanhol, além de alguns dos filmes que tiveram sua colaboração, entre eles Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, e Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock.
"Para Dalí e toda sua geração, o cinema era a concretização de toda espécie de possibilidades mágicas", disse Matthew Gale, curador da exposição que ficará aberta entre 1º de junho e 9 de setembro.
"Parece extraordinário que um artista cujo trabalho é tão famoso ainda tenha algumas partes de seu trabalho que faltam ser descobertas", disse Gale em coletiva de imprensa concedida na quinta-feira para divulgar a exposição.
Gale disse que Dalí, nascido em 1904, integrou a primeira geração de artistas a serem fortemente influenciados pelo cinema e que ele cresceu admirando comediantes de Hollywood da era do cinema mudo, como Harry Langdon e Buster Keaton.
Dalí tinha atração pela forma de entretenimento vist a como "antiartística" que agradava às massas e subvertia as pretensões da alta cultura – modelo que o próprio Dalí iria adotar em sua própria carreira artística.
Um marco importante no longo caso de amor de Dalí com o cinema foi seu encontro com o diretor Buñuel em Madri, quando ainda era estudante.
Em 1929 os dois fizeram seu filme de estréia, Um Cão Andaluz – um filme curto que exerceu impacto imenso quando foi lançado em Paris e que incluiu a imagem memorável de um globo ocular sendo cortado por uma lâmina.
A próxima colaboração deles foi em A Idade do Ouro, de 1930, visto por muitos como um ataque a instituições como a família, a religião e a política, e que não tardou a ser proibido na França.
A exposição na Tate Modern pretende mostrar como algumas das imagens mais marcantes dos filmes já tinham sido exploradas nas telas de Dalí da mesma época.
Gale afirma também que alguns quadros subseqüentes de Dalí, como Ossificação Matinal do Cipreste, foram inspirados em métodos cinematográficos com os quais o artista já deveria estar familiarizado.
Na década de 1930 e 1940 a atenção de Dalí se deslocou para Hollywood, onde suas visões oníricas atraíram o interesse de grandes estúdios e diretores como Hitchcock, com quem Dalí trabalhou numa seqüência de sonho no thriller Quando Fala o Coração.
O artista também trabalhou com o estúdio Walt Disney numa produção animada intitulada Destino, cujo storyboard ele ajudou a criar.
Mas, como vários outros de seus esforços no cinema, Destino não chegou a ser completado enquanto Dalí estava vivo, tendo sido concluído apenas em 2003.
Dalí criou vários retratos e quadros de figuras famosas do cinema, incluindo um em que a atriz Shirley Temple é convertida numa esfinge vermelha monstruosa. Ele também captou o ator Laurence Olivier numa pintura.