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Filosofia infantil

Arquivo Geral

14/03/2008 0h00

Alerta aos pais: Horton e o Mundo dos Quem pode fazer bem às crianças e, se brincar (e deve-se levar essa brincadeira muito a sério), é um tapa na consciência de muito patriarca que imagina ter passado sua fase de fazer a pergunta mais simples da vida: “Por quê?”. Na verdade, a pergunta que rege a trama desta nova animação dos Estúdios Blue Sky (concorrente direta da Pixar e DreamWorks, responsável pela brilhante saga ártica A Era do Gelo) é outra. Pergunta-se: Quem?

E a resposta está nas mãos (ou melhor, na tromba) do elefante gente-fina Horton que, num de seus passeios pela floresta, ouve o grito de um Quem. Quem? Isso mesmo, esse é o nome dado às criaturas que Horton descobre morar num grão, no cocuruto de uma flor, espécie de dente-de-leão rosa.

Toda a comunidade da selva o considera louco, à exceção da garotada, que embarca numa febre de andar por aí com uma flor na mão a conversar. Mas, então, surge a figura autoritária de uma canguru mandona. Ela o acusa de incentivar as crianças a usar a imaginação.

A moral vem à tona, certo? Só que há muito mais por trás do engenhoso roteiro tirado da obra do cultuado Dr. Seuss (seria um Monteiro Lobato da literatura infanto-juvenil americana). As questões pontuadas pela dupla de diretores Jimmy Hayward e Steve Martino no filme esbarra em discussões filosóficas e, por que não, astronômicas?

No entanto, os Quem não são fruto da imaginação do herói Horton. Eles estão lá naquela flor, naquele grão, naquele universo de criaturas peludas e molengas, donas de uma civilização muito à frente do que os animais da selva poderiam imaginar.

Nessa terra, ou melhor, grão, Horton consegue contato com o prefeito de Quemlândia, pai de família dedicado às suas 89 filhas e único filho (rebelde, emo), porém, que desconfia da vulnerabilidade de seu planeta, afinal, todo mundo que conhece é carregado pela tromba de um elefante desastrado.

Nesse aspecto, a figura do prefeito lembra a de Galileu Galilei, ao afirmar que a terra era redonda. Ele é desacreditado ao tentar convencer o conselho rigoroso de Quemlândia de que seu mundo está exposto a mudanças climáticas que poderiam ser catastróficas. E ao prefeito, sobra a humilhação de não conseguir prová-lo. Do lado de fora, na selva, Horton é literalmente caçado pela ditadura da canguru, condenado à morte por “blasfêmia” (o que não foi a Inquisição?).

A riqueza do discurso – e dos modestos traços, diante da magnitude de A Era do Gelo, por exemplo – perde em muito com a precária dublagem. O vilão, um abutre desengonçado, ganhou a voz de um paulistano daqueles descendentes de italiano, Horton (originalmente de Jim Carrey) e o prefeito (de Steve Carrell) empobreceram-se, apesar dos esforços de Marco Moreira (dublador oficial de Carrey) e Tom Cavalcante (não é dos seus piores).

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