A polêmica queo best-seller e blockbuster cinematográfico O Código Da Vinci tentou desenvolver em torno da relação de Jesus Cristo com Maria Madalena em 400 páginas de livro e 150 minutos de fita, o diretor Abel Ferrara extraiu com muito mais eficiência nas entrelinhas de seu novo trabalho, Maria, que chega com atraso de dois anos aos cinemas brasileiros.
Ferrara discute hipóteses de Maria prostituta, amante, mera fiel ou principal discípula de Jesus Cristo, por meio dos personagens (religiosos ou cientistas) que compõem o elenco de entrevistados do popular talkshow televisivo de Ted Younger (Forest Whitaker). Mas não se limita a levantar questionamentos sobre os misteriosos evangelhos de Tomé e Maria Madalena ou protestar contra as tradições da Igreja Católica Ortodoxa.
Ferrara se utiliza da própria polêmica para fazer um recorte sobre a fé cristã sobre os aspectos que são realmente relevantes sobre o ser religioso: um Jesus da ficção narcisista cegado pelo orgulho, uma Maria convertida pelos ensinamentos do verdadeiro Cristo; e o apresentador de TV cético Younger, quebrantado pelo nascimento precoce do primeiro filho.
O primeiro personagem é o grosseiro cineasta Tony Childress (Matthew Modine), diretor e ator principal de um filme sobre a paixão de Cristo; e a Maria, na verdade Marie, é a atriz (Juliette Binoche) que vive Madalena na película, mas abandona a carreira – de certa forma atormentada pelo peso da personagem – para viver em Jerusalém, reclusa.
As soluções da trama recaem sobre Ted Younger que, ao tentar levar Childress e Marie ao seu programa, descobre a fé ao dar razão aos protestos de fanáticos religiosos ao filme sobre Jesus Cristo. A transformação de Younger, desse ponto de vista, torna-se o grande apelo do filme.