O filme Fados, do cineasta espanhol Carlos Saura e que conta com as participações de Chico Buarque, Caetano Veloso e Toni Garrido (vocalista do grupo Cidade Negra), transformará nesta sexta-feira a cidade basca de San Sebastián em capital da música portuguesa.
O longa, dedicado ao tradicional gênero musical que lhe dá nome e que se soma a outras produções musicais de Saura, como Sevillanas (1992), Flamenco (1995) e Tango (1998), mostra as diversas tendências seguidas pelo fado mediante interpretações de seus melhores intérpretes, como Mariza, Camané e Carlos del Carmo, supervisor musical do filme.
Estes três fadistas subirão esta noite no palco do teatro Victoria Eugenia para um show que acontecerá após a projeção de Fados, incluído na seção Zabaltegi do 55º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.
“Desde que era criança ouvia fados. Há muitos tipos de fado. Mas na Espanha não sabemos muito disso porque, com Portugal, ninguém sabe por que, sempre há uma barreira intransponível, mesmo estando tão perto”, disse Saura.
Assim como o escritor português José Saramago, o cineasta defenda a idéia de uma fusão entre Espanha e Portugal. “Nunca entendi a questão das fronteiras, muito menos a da fronteira com Portugal”, declarou o diretor, que nasceu em Huesca, em 1932.
As fronteiras culturais, por outro lado, ele as entende bem. “Eu podia ter feito um filme nos Estados Unidos. Robert Altman tinha me proposto. Mas pensei muito e dei-me conta de que não conhecia a cultura americana” e de que “não estava preparado para fazê-lo”, admitiu.
“Não me importo em fazer filmes na França, na Itália, em Portugal ou na Costa Rica, onde rodei El Dorado (1988). Também fiz dois filmes em Buenos Aires”, mas porque os latino-americanos vivem em “países com o mesmo idioma, e isso faz você se sentir em casa”, contou.
Sobre os filmes que dedicou música, Saura disse são “muito prazerosos”, já que pela frente das câmeras passam os “melhores artistas do mundo em determinado gênero ou dança”. A protuguesa Mariza, por exemplo, “é a María Calas do fado”, destacou.
No cinema, o cineasta agora dará continuidade às filmagens de Don Giovanni, longa baseado na vida de Lorenzo da Ponte, libretista de Mozart, e que se passa em Veneza e Viena. Ganhador do Urso de Ouro em Berlim (Depressa, Depressa, 1981), do prêmio de melhor diretor em Cannes (A Prima Angélica, 1974) e de treze Goyas (com Ai, Carmela!, 1990), Saura reconhece que não ter rodado Esa Luz!, livro sobre a guerra civil espanhola, é uma de suas maiores frustrações.
“Fiz Esa Luz! em forma de romance porque nenhum produtor queria filmá-lo. Era meu testamento, minha opinião sobre a guerra espanhola, e não houve forma de fazê-lô. Era muito caro”, disse.