Reunidos em uma sala, deputados e fazendeiros esperam o início de um leilão. O primeiro artigo tem o lance inicial de R$ 2,5 mil. "R$ 5 mil", arremata o deputado. A próxima mercadoria é oferecida a R$ 1,5 mil. Um fazendeiro aumenta o lance para R$ 2,5 mil. "Por R$ 3,5 mil o senhor leva essas duas", negocia a vendedora. "Vendido!".
As mercadorias em questão: crianças. Meninas entre 10 e 12 anos vendidas, revendidas, transportadas e tratadas como um produto de compra e, em alguns casos, até como animais. Seus compradores são chamados "padrinhos" ou "madrinhas", pessoas que vão explorá-las financeira e sexualmente. Essa é uma das cenas do filme Anjos do Sol. Uma obra que, apesar de ficcional, tomou por base a realidade brasileira.
Anjos do Sol conta a história de Maria, uma menina pobre vendida pelo pai em troca de alguns reais. A esperança da família é que ela consiga um emprego na cidade grande. Mas, a menina tem destino certo: a prostituição infantil.
Em seu primeiro trabalho como diretor de cinema, Rudi Lagemann revela que além de tentar abordar "de maneira respeitosa e sensível um universo tão sórdido", seu grande desafio foi também a preparação das atrizes; crianças que teriam de vivenciar um "tema tão pesado".
O diretor e roteirista conta que o filme é resultado de pesquisas em jornais, revistas e publicações do governo e de organizações da sociedade civil. "Anjos do Sol é fruto de pesquisa de pessoas que se preocupam com esse tema. Pessoas que escreveram textos, que desenvolveram trabalhos com crianças segregadas da sociedade. Essas pessoas vêem agora, no filme, um instrumento de trabalho. Elas me forneceram informações e o longa é o fechamento de um ciclo, porque elas vão levá-lo para o trabalho delas. Então, a realidade virou ficção e, novamente, a ficção vira realidade".
De acordo com a Secretaria Especial de Direitos Humanos, a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes ocorre em 932 municípios do País. Em um mapeamento realizado pela Polícia Rodoviária Federal, foram identificados mais de 1.200 pontos nas estradas federais onde essa prática pode acontecer.