Quando se fala no maior evento cinematográfico do mundo, imediatamente salta à memória o Oscar. Pensa-se que aquela estatueta dourada será o arauto da safra dos blockbusters e obras artísticas do cinema norte-americano e, numa menor parcela, das produções mundiais. Entretanto, justiça deve ser feita e rendido o crédito das profecias aos franceses – que, apesar de mais jovens que o Oscar (do alto de seus 79 anos), realizam a genuinamente maior vitrine de produções mundiais do cinema: o Festival Internacional de Cannes, que inaugura hoje sua 60ª edição e anuncia os próximos 49 filmes que devem arrebatar platéias num futuro circuito cinematográfico. Foram avaliados 1.615 longas, de 95 países.
Desses, dez dos filmes espalhados entre as mostras do 60° Festival de Cannes são de diretores brasileiros, ou levam assinatura de produtoras nacionais. O cinema brasileiro cruza o oceano sem nenhum longa-metragem na seleção oficial, embora quatro participem de mostras paralelas. Limite (1931), clássico mudo conceitual de Mário Peixoto, integra o Cannes Classics; O Banheiro do Papa, dos uruguaios radicados no Brasil Enrique Fernandéz e Cesar Charlone, é produção brasileiro-uruguaia da O2 Filmes que está na Semana da Crítica; A Via Láctea, segundo longa-metragem da cineasta Lina Chamie (Tônica Dominante), abre o prestigioso módulo da Crítica; e Mutum, adaptação de Sandra Kogut para Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa, encerra a Quinzena dos Realizadores.
Dois outros brasileiros participam de projetos coletivos internacionais. Walter Salles (Central do Brasil e Diários de Motocicleta) assina um dos curtas-metragens dos 35 que compõem o longa de auto-homenagem a Cannes encomendado por seu presidente, Gilles Jacob: A Chacun Son Cinéma (A Cada um seu Cinema). E Vicente Ferraz documenta um dos seis episódios da produção portuguesa Olhar o Estado do Mundo.
A participação dos longas-metragens brasileiros em Cannes é tradicionalmente inconstante, a tirar pelas últimas edições do evento. Porém, desde 2002, quando Um Sol Alaranjado, de Eduardo Valente, ganhou o prêmio da Cinéfondation (seção competitiva dedicada a filmes de escolas de cinema), os curtas nacionais têm batido ponto anualmente no maior festival do mundo.
Neste ano, o curta-metragem brasileiro representa a única chance de o Brasil ganhar a cobiçada Palma de Ouro (troféu da mostra competitiva do festival). Quatro pequenos filmes se espalham pelas seções do evento, mas apenas um compõe o limitado elenco da chamada seleção oficial. The Last 15, de Antonio Campos (que já levou para casa um prêmio da Cinfóundation por Buy It Now), participa da disputa pela Palma de Ouro, enquanto Saba, de Gregório Graziozi e Thereza Menezes, participa da Cinéfondation. Na Semana da Crítica, serão exibidos Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra, e Saliva, de Esmir Filho.
Se os cliques no tapete vermelho do Oscar são um dos pontos altos da festança do cinema hollywoodiano, em Cannes o momento do glamour é no alto das escadarias do Teatro Lumière, no Palácio dos Festivais, na cidade anfitriã que dá nome ao festival francês. Entre os convidados que sobem os degraus desse “templo” estão nomes como os dos diretores Martin Scorsese, Manoel de Oliveira, Quentin Tarantino, Wim Wenders e Roman Polanski, astros pop como Bono Vox e estrelas cinematográficas como Angelina Jolie (que estrela A Might Heart, de Michael Winterbottom), Natalie Portman, George Clooney e Javier Bardem.
Para a abertura do festival, na noite de hoje, ainda são esperados o ator Jude Law e a cantora Norah Jones, que, com Portman, forma o elenco de My Blueberry Nights, do diretor chinês Wong Kar-wai.
Quinta-feira, a sessão competitiva de Zodiac levará a Cannes os atores Jake Gyllenhaal (O Segredo de Brokeback Mountain), Mark Ruffalo, Chloë Sevigny e seu diretor, David Fincher. Convidado a ser o patrono da Semana da Crítica, o ator mexicano Gael García Bernal (Diários de Motocicleta) aproveita a ocasião para lançar seu primeiro filme como diretor, Deficit, no dia 21. De igual modo, o comediante Jerry Seinfeld aproveita para divulgar a animação Bee Movie, na qual participa dublando uma abelha.
No dia 24, o diretor Steven Soderbergh e o elenco do terceiro filme estelar 13 Homens e um Novo Segredo chegam ao festival. Entre as presenças confirmadas, estão George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon e Al Pacino.
Os 35 diretores de A Chacun Son Cinéma, incluindo o brasileiro Walter Salles, são esperados para subir as escadarias do teatro, ao encontro de Gilles Jacob na sessão comemorativa dos 60 anos do festival.
O júri é presidido este ano pelo britânico Stephen Frears (A Rainha), e a atriz alemã Diane Kruger (O Segredo de Beethoven) será a mestre de cerimônias.