O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi palco do ápice do Cinema Novo e berço para o nascimento do cinema "dos candangos". Essas duas poderosas identidades que pavimentaram o caminho de todos esses anos do maior evento do cinema brasileiro se encontram no Romance do Vaqueiro Voador, obra do cineasta paraibano radicado em Brasília Manfredo Caldas (Uma Questão de Terra e Negros de Cedro), que abre a 39ª edição do festival, na noite desta terça-feira, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
A cerimônia de abertura é fechada para convidados, mas o público terá ao menos três oportunidades de assistir ao longa-metragem sobre a aventura poética de um vaqueiro migrante nordestino pela capital federal. O filme será reprisado quarta-feira, às 20h, no cinema do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB); sábado, também às 20h, no Centro Cultural Sesi de Taguatinga; e no dia 29, com sessões às 14h e às 21h30, nos cinemas da Embracine (CasaPark).
Curiosamente, Romance do Vaqueiro Voador é um filme baseado em um poema, cuja inspiração vem de um filme, o curta-metragem Brasília Segundo Feldman, do "conterrâneo velho de guerra" de Manfredo, Vladimir Carvalho. "João Bosco (Ferreira, o autor dos versos que inspiraram Manfredo) ficou impressionado ao ver o filme, então escreveu o poema, que agora volta a ser cinema. Esse aspecto da metalinguagem é muito evidente", detalha Manfredo.
A história do vaqueiro voador transporta a estética do cangaço nordestino – abordado intensamente pelo Cinema Novo – a Brasília, onde encontra a resistente (e, em parte, triste) história dos candangos, mão-de-obra operária que ergueu a nova capital de Juscelino Kubitschek.
"Existe, assumidamente, uma influência do Cinema Novo. Trabalho com imagens de arquivo e enquadramentos inspirados em outros filmes (do movimento)", adianta o cineasta, que também credita parte da influência do filme à obra do parceiro Vladimir Carvalho.
O vaqueiro, interpretado pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos (Eu, Tu, Eles e Árido Movie), caminha pela cidade, pelos matos, declamando o poema de João Bosco, com alusões ao sertão nordestino. Por mais que se assemelhe a um docudrama – devido às referências históricas –, é uma obra ficcional de contrastes com a realidade.
"É a história de um vaqueiro que se embrenha no Cerrado para a construção de Brasília. Encontramos candangos reais, mas que não dão depoimentos. É uma tentativa de equilibrar essa narrativa entre real e ficcional que, na verdade, são separados por uma linha muito tênue", diz o diretor.
Com os mais de 30 anos de experiência e militância no cinema local, Manfredo Caldas não esconde o nervosismo diante da responsabilidade de abrir o 39° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. "Falar sobre minha expectativa é muito difícil. A responsabilidade é muito grande e há uma certa ansiedade. O festival é o mais importante do País, por ser dedicado exclusivamente ao cinema brasileiro", desabafa o cineasta, que comemora a boa fase do cinema brasiliense.
O próprio festival é exemplo da robusta produção local. Nesta edição, os trabalhos entre longas e curtas-metragens, de 35 ou 16 milímetros, equivalem a um terço dos filmes selecionados para a mostra competitiva. Dos 39 títulos que serão exibidos de quarta-feira a segunda-feira na telona do Cine Brasília, 13 são assinados por cineastas da cidade. O paraibano de coração candango Vladimir Carvalho representa o DF na mostra competitiva de longas em 35mm, com o documentário O Engenho de Zé Lins.
Dos 12 curtas-metragens selecionados para disputar na bitola de 35 milímetros, quatro são do DF: Dia de Folga, de André Carvalheira; Divino Maravilhoso, de Ricardo Calaça; Uma Questão de Tempo, de Catarina Accioly e Gustavo Galvão; e o capítulo final da trilogia de Galvão, A Vida ao Lado (sucessor de Danae e Uma Noite com Ela).
Na bitola 16mm, foram eleitos oito produções da casa, entre as 21 na competição. São elas: A Volta do Candango, de Filipe Gontijo e Eric Aben-Athar; Borralho, de Arturo Sabóia e Paulo Eduardo Barbosa; Do Andar de Baixo, de Luisa Campos e Otavio Chamorro; Nada Consta, de Santiago Dellape; Naturacaos, de Alisson Machado; Vestígios, de Pablo Gonçalo; O Eixo do Homem, de Marcius Barbieri; e Ódio Puro Concentrado, de André Miranda.
Além da mostra competitiva, o público poderá conferir a Mostra Brasília, que agrega toda a recente produção local, com destaque para a estréia de Fuga Sem Destino, filme inacabado deixado por Afonso Brazza em 2003 e concluído por Pedro Lacerda.