Para quem viveu a época, 1994 foi o ano em que o funk tomou conta do Rio, com bailes inesquecíveis, novos MCs a cada semana, raps enormes na ponta da língua, modismos e até hino: o Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, do bairro carioca Cidade de Deus. Dez anos depois, o refrão “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci” ainda ecoa, enquanto a vida de muitos dos funkeiros mudou. Enquanto alguns abandonaram a música, outros persistem, com dificuldades.
“Eram milhares de MCs, e a queda do funk derrubou muita gente”, lembra Cidinho, de 27 anos. O sucesso do Rap da Felicidade trouxe “casa e transporte” para a dupla. “A letra é da Kátia e do Juninho Rasta. Ela escreveu um trecho e nós terminamos a letra e acabamos a melodia”, explica Doca. A dupla continua na ativa.
“Até hoje cantam o Rap do Solitário como se tivesse sido lançado há 4 meses”, conta MC Marcinho. “Não fico um fim de semana em casa. Aqui, querem pagar R$ 100. Prefiro me apresentar fora e ganhar R$ 4 mil”, diz o MC, que trabalhou em hospital quando a moda passou.
Pôr o pé no chão depois de conhecer o sucesso é complicado. “Trabalhei entregando panfleto. Tinha fã que me reconhecia e distribuía para ajudar”, lembra MC Cacau, que, apesar de suas brigas musicais com Marcinho, não se casou com o MC.
Táxi”Hoje vivemos do táxi. Eu rodo de manhã e o Leonardo à noite”, conta MC Júnior, local da Rocinha e sucesso com o Endereço dos Bailes e o Rap das Armas. “Com três meses na praça, levei ao Méier uma menina que me reconheceu e disse que ia contar para a irmã que o MC Leonardo me levou em casa”, conta Leonardo, que pretende voltar a viver da música, como Moysés Osmar da Silva, ex-funcionário da antiga Telerj que virou Bob Rum e se destacou com o Rap do Silva, do cara que “era funkeiro, mas era pai de família”. “Não fiquei rico, mas posso parar, se quiser. Canto pelo prazer de cantar”, diz.
CeasaParar nem passa pela cabeça de Jorge Luís da Conceição, o JL, da Força do Rap. “Começamos com sete e hoje somos quatro. O Pixote hoje é pastor evangélico, o Alex trabalha por conta própria em um açougue e o Betinho foi morto em 2001”, conta JL, que também vendeu salgados na Ceasa para sustentar a mulher e seus três filhos. “Hoje sou promotor de vendas de leite de cabra”.
A história de Betinho é um capítulo à parte. “Ele foi confundido com um bandido numa troca de tiros em Acari. Preto, pobre, andando na favela à noite, a polícia foi logo perseguindo”, conta JL. O envolvimento com o crime, aliás, também foi comum a outros. MC Rosado, que regravou Aquele Beijo Que Te Dei, de Roberto Carlos, saiu da prisão há pouco tempo.
“Depois que a fama acabou, ele se desesperou e entrou para o tráfico”, lembra JL. William, ex-parceiro de Duda, também andou com problemas na Justiça. Em 1995, foi pego no Borel com 50 gramas de maconha. “Temos que mostrar que funk não é tráfico e que MC não é traficante, é artista”, prega Duda do Borel.