A Capela da Reconciliação da Bernauer Strasse de Berlim lembrou os – segundo números oficiais- 136 cidadãos que morreram ao tentar atravessar a chamada Faixa da Morte, entre essa data e 9 de novembro de 1989, quando o Muro foi derrubado.
Com isso foi lembrada a manhã em que a cidade amanheceu dividida. Dos alambrados provisórios em que seus setores ficaram separados, ao fim da Segunda Guerra Mundial, passou-se a construir o que seriam os 155 quilômetros de muro de concreto, de até quatro metros de altura, que moldou a metade oeste da cidade.
“Ninguém tem a intenção de levantar um muro”, afirmara o chefe do Estado da República Democrática Alemã (RDA), Walter Ulbricht, dois meses antes. Em 13 de agosto, um domingo, ficou claro que a realidade era outra e que o regime construiria o que foi batizado cinicamente de Muro de Proteção Antifascista.
Os alambrados provisórios eram um corredor atravessado todos os dias pelos cidadãos germânico-orientais em direção à parte oeste, para não voltar para casa à noite.
Em lugar disso foi construído o Muro que, nos anos posteriores e até sua queda, foi sendo reforçado até se transformar em fronteira quase inviolável.
Da parede inicial se passou a um muro duplo, com um corredor interior de 100 metros de largura, em alguns pontos, equipado com torres de vigilância e com 11.500 soldados com ordem de atirar contra quem tentasse atravessá-lo.
A Bernauer Strasse, uma das ruas que ficou dividida, conserva um desses lances de muro duplo, junto ao qual há um centro de documentação.
O fragmento mais longo, de 1,3 quilômetro, é o conhecido como East Side Gallery, onde artistas de todo o mundo estamparam suas pichações após a queda do Muro, repintado agora por causa da proximidade de outra comemoração muito mais alegre: o 20º aniversário da queda do Muro, em novembro.
Na Haus der Kulturen der Welt -a Casa das Culturas do Mundo, um pavilhão de congressos do lado ocidental apelidado “A Ostra grávida” por sua arquitetura singular – foi inaugurado neste aniversário a mostra Ostzeit. Geschichten aus einem vergangenen Land – Tempo do Leste. Histórias de um país do passado.
A exposição inclui imagens de cinco fotógrafos da agência Ostkreuz -Sibylle Bergemann, Ute Mahler, Werner Mahler, Harald Hauswald e Maurice Weiss.
Trata-se de um grupo de profissionais germânico-orientais – com exceção de Weiss, do oeste, mas que se juntou aos demais -, que, a meio caminho entre a reportagem gráfica e a foto artística, recriaram a vida diária na RDA.
As imagens vão das concentrações oficiais do Primeiro de Maio, por ordem do regime, a encontros entre dissidentes e shows de rock na semiclandestinidade.
De um lado, Egon Krenz, último chefe do Estado e do partido da RDA, conversando com Margot Honecker, a mulher de seu antecessor, Erich Honecker, em um ato oficial de 1980. Do outro, participantes do mesmo desfile, voltando para casa com o olhar perdido.
As fotos, em rigoroso preto-e-branco, formam um conjunto de tom inevitavelmente melancólico. “Nem tudo foi triste, também nos divertimos, víamos futebol, namorávamos”, explicou à Agência Efe Hauswald, para quem sua série de fotos tenta refletir “o lado engraçado enterrado em tanta tristeza germânico-oriental”.
Em sua maioria, as fotografias correspondem às últimas duas décadas de existência da RDA. Fecha a exposição uma série de Weiss, tirada em 11 de novembro de 1989, dois dias depois da queda do Muro, com centenas de berlinenses passeando pelas ruas, de um lado e do outro, sem acreditar ainda que a divisão acabara.
Como registro final, o pavilhão vazio, com o cartaz do Congresso Extraordinário do Partido Socialista Unificado (SEDE), de dezembro desse ano, com a RDA a caminho da extinção.