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Ex-lavador de carros mostra quadros na Câmara dos Deputados

Arquivo Geral

02/04/2007 0h00

Hosana Bezerra, 49 anos, é um exemplo de que a arte pode ser um importante instrumento de transformação social. O artista plástico apresenta, até o dia 19 de abril, a exposição de pinturas Geometria das Cores II, no corredor de acesso ao plenário da Câmara dos Deputados. No entanto, nada veio fácil na vida desse pernambucano. Ele deixou Recife há 19 anos e chegou a Brasília em busca de um emprego que lhe garantisse um futuro decente. Não encontrou e, com a necessidade batendo à porta, começou a lavar carros em um dos estacionamentos do Congresso Nacional.

“A preocupação é enorme quando você chega a certa idade e percebe que ainda não tem segurança financeira. Então, desde 1999, eu trabalhava de segunda a sexta e lavava uma média de quatro veículos por dia para ganhar pouco mais de R$ 75 por semana”, conta Hosana. “O problema é que, tirando as despesas com transporte e alimentação, não sobrava quase nada”, completa.

Um dia, durante a rotina de peregrinação pelo Congresso Nacional para devolver chaves de carros para seus clientes, Hosana Bezerra encantou-se com as obras de arte presentes no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, no Anexo I da Casa, e decidiu pintar seu primeiro quadro. Uma funcionária pública interessada em artes plásticas deu as primeiras tintas, pincéis e telas para ele. Pouco depois, recebeu dicas de Marco Aurélio Tavares, o Lelo, coordenador artístico do Núcleo de Artes Plásticas do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, que o ajudou a definir seu estilo artístico.

“Eu me inspiro muito nos traços e na simetria de Brasília para criar meus quadros, mas sempre achei a cidade muito cinza e, por isso, trouxe a influência das cores do frevo e do maracatu para as minhas obras”, avalia o artista. Hosana Bezerra afirma que suas pinturas lhe renderam comparações, guardadas às devidas proporções, claro, a artistas consagrados, como Athos Bulcão, Romero Brito e Rubem Valentim. Hoje, um quadro de Hosana Bezerra varia entre R$ 1 mil e R$ 2 mil. “Eu aceito encomendas e divido o pagamento em até quatro vezes”, destaca.

A carreira artística de Hosana é administrada por sua assessora e esposa, Ana Paula Bezerra. É ela quem recolhe e organiza o material de trabalho que Hosana ganha de funcionários do Congresso Nacional e admiradores de suas obras, cuida dos filhos do casal, Kleber, 11 anos, e Rayane, 9 anos, e equilibra o orçamento doméstico quando ele está em fase de produção. “Olha, essa mulher é realmente demais e eu não sei o que seria da minha vida sem ela”, derrete-se. “Pode escrever aí que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, faz questão de registrar.

Apesar da bem sucedida trajetória no mundo das artes plásticas e de conseguir seu sustento por meio da venda de seus quadros, Hosana Bezerra, morador da Cidade Ocidental, ainda não pode dedicar-se exclusivamente às suas obras. Às vezes, a falta de incentivo e a dificuldade financeira rondam a vida do lavador. “Ainda hoje, quando o bicho pega, eu volto aos estacionamentos do Congresso para lavar carros”, ele lamenta. “Mas tem um monte de funcionários daqui que, quando me encontra lavando algum veículo diz que não era para eu estar fazendo isso e que minha vida mudou e agora sou um artista”, relata.

De fato, desde que Hosana Bezerra realizou sua primeira exposição, em 2003, sua vida mudou. Ele declara que lavar carros é uma atividade cruel por causa do grande esforço e da baixa remuneração e só depois de conhecer o mundo das tintas pôde amenizar a dura rotina que levava desde que saiu do nordeste. “A arte é muito importante para mim e graças a ela eu sou feliz demais”, comemora.

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