Hoje é dia de sair para jantar. Se a opção for um restaurante japonês e, chegando lá, você queira se alojar no tatame (aqueles biombos reservados onde se reúnem amigos e casais para saborear a culinária oriental, como fazem os nativos da Terra do Sol Nascente), cuidado. Verifique antes de sair de casa se, ao se livrar de seus sapatos, você não incomodará os acompanhantes. É que, geralmente, os pisantes trazem um cheiro não muito agradável conhecido popularmente como “chulé”. E isso não combina com sushi.
O chulé é causado pela secreção da glândula sudorípara dos pés – o suor da sola, associado à decomposição da queratina (proteína da pele trocada constantemente) – e pela presença de microorganismos (fungos e bactérias), que se proliferam em ambientes quentes, escuros e úmidos, como sapatos fechados. O mau cheiro pode ser combatido com a ventilação dos calçados.
É praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha tido um chulezinho. Contudo, dificilmente alguém terá coragem de assumi-lo. Existe um outro nome, mais pomposo e menos esdrúxulo, para identificar o problema. Você pode, por exemplo, informar ser portador de “bromidrose plantar” e, com isso, evitar constrangimento perante os comensais que o acompanham no sashimi do restaurante japonês. Detalhe importante: não adianta fugir do chulé, porque ele não escolhe a pessoa nem sua classe social, idade, sexo ou raça.
Como todo problema que incomoda, o chulé deve ser tratado, e, para isso, não é vergonha alguma agendar uma consulta com o dermatologista para controlar ou mesmo curar o problema. “Existem medidas simples para acabar com o chulé, mas devem ser seguidas à risca para que o tratamento tenha êxito”, recomenda o dermatologista Ivan Curtiss Brandão, da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
De acordo com o especialista, esse odor desagradável é comum em adolescentes, que, muitas vezes, se recusam a trocar o tênis por calçados abertos, e em profissionais que precisam usar calçados fechados, como soldados, com seus coturnos, e atletas.
Segundo Ivan Curtiss Brandão, a melhor forma de solucionar o problema é alternar o calçado e, depois de usá-lo, deixar em um local para tomar ar e sol. As meias devem ser trocadas diariamente e as recomendadas são as de algodão, já que as sintéticas aumentam o calor e a umidade.
“Em casa, prefira usar chinelos, para deixar os pés arejando”, explica o médico, que dá outra dica: “Use pastilhas de formol no interior dos calçados”. Segundo ele, o produto vai agir como uma naftalina, eliminando o odor. O produto pode ser adquirido em farmácias.
O dermatologista observa que o material do calçado também pode aumentar ou amenizar o mau cheiro. Os sintéticos, como borracha e plástico, tendem a concentrar mais o calor e a umidade e, conseqüentemente, aumentar o mau cheiro.
“O material deve ser o mais natural possível, de preferência pano, algodão e um bom couro”, explica o especialista. Essas medidas devem ser associadas ao uso de loções e talcos à base de cloridrato de alumínio; a produtos antibacterianos, que inibem o suor, como o Irgasan; ou talcos antifúngicos ou antiperspirantes.
De acordo com o médico, o produto pode ser aplicado diretamente nos pés e também nos calçados. Sempre que necessário, é importante lavar os tênis e deixá-los secando ao sol. Ele lembra que é bom evitar lavar os tênis em dias de chuva, para que o calçado não fique com cheiro rançoso.
O dermatologista recomenda, ainda, que as pessoas observem os próprios pés e verifiquem a presença de frieiras, descamações, rachaduras, micoses, que devem ser tratadas, de modo a eliminar fungos e bactérias. “Muitas pessoas acham que o problema é de família e tendem a considerar natural, mas não é e deve ser curado”, diz.