O orquestrador, compositor e produtor musical Rildo Hora começou sua carreira ainda menino tocando seu realejo – verbete nordestino para definir a gaita, ou harmônica. Desde 1968, o instrumentista pernambucano é o homem responsável pela ascensão de grandes nomes do samba. Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e Dudu Nobre são alguns dos tantos nomes. Rildo está hoje em Brasília, onde encerra a temporada de três shows (que apresenta desde quarta), às 21h30, no Projeto Heitor Villa-Lobos e seus Amigos do Choro, no Clube do Choro, acompanhado de seu filho, pianista Misael da Hora. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília Rildo Hora fala sobre o show – que se divide entre a música erudita e o samba – e narra peculiaridades de sua carreira como produtor e instrumentista, que rendeu três Grammy Award e o conseqüente reconhecimento como um dos cinco melhores gaitistas do mundo. Rildo revela ainda os projetos futuros de sua carreira. O mais iminente é a gravação do quinto volume da bem-sucedida série Casa de Samba. Rildo discorre sobre o atual cenário do samba no País e conclui citando os grandes nomes da nova safra do gênero.
Quando você começou a ter contato com a música?
Quando era menino em Caruaru, Pernambuco, tive lições de piano com a minha mãe, dona Cenira, ela me ensinou as primeiras notas. Em 1945, fomos para o Rio de Janeiro, como meu piano ficou em Caruaru, ganhei um realejo, que é como os nordestinos chamam a gaita. Até hoje estou aqui soprando para ver se acho alguma coisa (risos).
Você é conhecido por ser uma das grandes figuras da história do samba mais recebte. A que você atribui esse “título”?
Tenho muito orgulho por ter essa ligação com o samba. Brinco dizendo que tenho um irmão gêmeo que é o maestro do samba e trabalha com Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Fundo de Quintal, Beth Carvalho, Dudu Nobre, todo mundo do samba. E esse meu irmão tem muito orgulho de ser tão considerado pelos nomes do samba, eles são muito generosos.
Como é a relação com esses artistas que você citou?
É uma relação muito interessante. Faço a ligação entre eles e a empresa que os contrata, esse é o papel do produtor. Como sou arranjador também, eu os ajudo a fazer os discos e a tomar suas decisões. Quanto à questão do repertório eu os deixo bem à vontade. Quando estamos no estúdio minha presença fica bem marcante. Tenho uma atuação bem grande e me sinto muito à vontade com eles porque procuro estabelecer uma relação de respeito. Desde 1968 trabalho como produtor. Não só de samba, também fiz trabalhos com o Fagner e com a Preta Gil.
Como concilia a carreira de produtor com a de instrumentista, comprometido com shows?
O trabalho de produtor é mais marcante. Em função disso, geralmente não aceito ir para o exterior, é difícil me tirarem do Brasil. Quando dá para conciliar eu faço viagens, já estive na África, na Europa, na Rússia, nos Estados Unidos, na Argentina, já viajei muito. Quanto ao meu lado instrumentista, não deixo de lado, estou sempre presente com o meu realejo em todos os lugares que sou convidado.
Como está a carreira do músico Rildo?
Tá normal como a de todos os músicos brasileiros. De um modo geral, tenho atividades paralelas porque é difícil viver somente de música no Brasil.
O seu estilo é só samba?
Não. Eu trabalho com MPB de um modo geral. Neste show, aqui em Brasília, vou tocar música clássica. Me considero uma pessoa da música brasileira não só do samba.
Quais são os seus projetos para esse ano?
Vou fazer o DVD do Grupo Fundo de Quintal e o Casa de Samba Vol. 5 (série de shows com duetos de grandes cantores da MPB). Vamos começar a organizar as duplas para gravar em outubro. Também estou organizando o DVD dos Demônios da Garoa e estou com várias propostas para fazer trilha sonora para filmes, DVDs e musicais.
Você foi considerado um dos cinco maiores gaitistas do mundo. Como encara essa responsabilidade?
Vejo isso com muita humildade. Conheço outros muitos gaitistas bons. Acho que eu fui considerado até por uma certa generosidade, por causa de um disco que fiz em 1992, com o (filho) Misael da Hora. Esse disco foi lançado nos Estados Unidos e ganhou um prêmio dentre os dez melhores daquele ano de Jazz Latino. Não me considero músico de jazz, mas me deram esse prêmio. O jornal alemão Deutsch Zeitung escreveu que eu era um dos cinco melhores gaitistas do mundo. Não concordo, não me considero assim, não acho que eu estou com essa bola toda.
Como foi receber três Grammy de melhor produtor e orquestrador junto com Zeca Pagodinho?
É fabuloso porque a gente não pode imaginar que um cidadão de Caruaru, que foi morar no Rio de Janeiro, possa ganhar um prêmio desses. Estou muito contente e satisfeito.
Quantos CDs você já gravou?
Perdi a conta (risos). Comecei a trabalhar em 1968. Se você imaginar que eu faço por ano, no mínimo, uns cinco discos, vai ver quantos tem aí. Tem muita participação também, é muita coisa.
Diante do seu trabalho com tantos artistas famosos, como é trabalhar com o seu filho, Misael?
É muito bom. Ele entende perfeitamente a minha música. O Misael é um pianista muito sensível e quando a gente toca em família, sente esse entrosamento maior por causa dos genes formadores.
Você acha que ele segue seus passos?
De uma certa forma. Ele pretende fazer a carreira de cantor, compositor e pianista. Está muito preparado para isso e vai se lançar dessa maneira também. Ele já é conhecido na praça como pianista e está querendo ampliar o espaço dele passando para frente dos holofotes. Acho que ele vai conseguir porque canta muito bem.
Você já dirigiu trabalhos de Elizeth Cardoso, João Bosco, Luiz Gonzaga…
Foi quando iniciei a minha carreira. Procurei trabalhar com os artistas veteranos. Isso foi antes de ser produtor. Foi muito importante pra mim trabalhar com eles, porque peguei muita experiência nas conversas que tive com elas no meu carro. Geralmente carregava todo mundo para o estúdio. Um dia levei o Gonzagão no meu fusquinha para uma viagem do Rio de Janeiro a São Paulo. Fomos conversando tanta coisa, trocamos tanta experiência de vida, na verdade, eu ouvi muito mais do que falei. Aliás, Gonzagão era até meu compadre, padrinho da minha filha, Patrícia da Hora, que é vocalista e trabalha com Martinho da Vila.
Você fez um CD infantil com Martinho da Vila, intitulado Você Não Me Pega. Foi uma experiência nova?
Foi uma experiência muito boa. Esse trabalho foi feito há cinco anos. Martinho fez todas as letras e eu todas as músicas. Ele é meu parceiro de diversas outras músicas. Fui produtor dele por muito tempo.
O samba está de volta à televisão, com Zeca Pagodinho, Dudu e, agora, o Gabrielzinho do Irajá. Você acha que o samba de raiz está voltando?
O samba está sempre bem. Quando ele não está muito na mídia ele está em todos os lugares, nos bairros e, principalmente, nas cidades interioranas. Às vezes ele vai forte para a mídia, quando lançam uma música boa.
Como você analisa o cenário do samba em 2005?
Está muito bem, principalmente porque o Zeca Pagodinho está fazendo muito sucesso. O samba é o gênero musical favorito dos brasileiros. Faço esse projeto Casa do Samba, da Universal, no qual a gente junta sambistas com pessoas que não são sambistas, por exemplo, Cássia Eller cantou com Noite Ilustrada, Zélia Duncan com Dona Ivone Lara, Ney Matogrosso com Zeca Pagodinho… é um projeto muito polêmico. A intenção é esta: confirmar que o samba é o gênero favorito do brasileiro.
Na sua opinião, existe alguma barreira entre o erudito e o popular?
Existe a dificuldade cultural. Existem arestas que são facilmente aparadas quando há encontros. Por exemplo, eu já vi Arthur Moreira Lima tocando com a bateria da Mangueira. Apesar das diferenças, os dois gêneros são muito interessantes, tanto a música de concerto, que é chamada de culta, quanto a música soberana, que é a popular.
Você gravou um CD com a pianista Maria Teresa Madeira no ano passado que era voltado para o erudito…
Fiz um disco da minha obra com gaita e piano. São todas as partituras escritas para piano e gaita sem cifras, somente melodia, como se fosse música clássica. São músicas minhas e de outros autores que eu escrevi para esse duo.
O projeto do Clube do Choro é em homenagem a Villa-Lobos. Terá um formato mais clássico?
Esse show é uma mistura, vou interpretar Villa-Lobos, mas também vou tocar Pixinguinha.
Quais são os novos nomes do samba?
É uma pergunta difícil, essa renovação é muito lenta. Posso citar a Juliana Diniz, filha do Mauro Diniz, que trabalhou na novela Senhora do Destino. Ela era a amante do Shaolin. Ela canta muito bem, gravou um disco com grandes nomes do samba e eu fui produtor, com Zeca Pagodinho. Mas não é só porque produzi não (risos).
Qual é a sua opinião sobre o pagode romântico que foi chegando nos anos 90 e ficou até hoje?
O pagode popular urbano é um tipo de música da manifestação cultural urbana, que representa um determinado setor da sociedade e tem o seu espaço no mercado. Se eles vão ficar ou não, isso o processo histórico vai julgar como também me julga com o meu trabalho. Tudo que está entrando na música vai passar por um processo para ser analisado, vai passar por uma peneira e quem tiver algo a dizer no futuro, ficará.
Serviço
Projeto Heitor Villa-Lobos e Seus Amigos do Choro – Show com Rildo Hora e Misael da Hora. Hoje, às 21h30, no Clube do Choro (Eixo Monumental, entre o Centro de Convenções e o Planetário). Ingressos a R$ 10 (inteira).