O Projeto Bossa Renovada traz neste fim de semana o show de encerramento do evento que trouxe para Brasília novos nomes da bossa nova, com o objetivo de revitalizar o estilo musical. O cantor, compositor, pianista e arranjador Marcos Valle estará acompanhado da cantora e compositora paulistana Céu, hoje e amanhã, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil.
Representante da chamada segunda geração da bossa nova, Marcos Valle apresentará canções instrumentais de seu mais recente CD, Jet Samba, lançado há dois meses, entre elas Bar Inglês, Campina Grande, Brasil México e Selva de Pedra, sucesso da trilha sonora da novela homônima, da Rede Globo, na década de 70. “Toco ainda músicas que conquistaram o público que tenho na Europa e no Japão, um público novo”, adiantou o cantor em entrevista ao Jornal de Brasília. Ele vai tocar violão, piano acústico e Fender Rhodes (piano clássico dos anos 70).
Depois de sua apresentação solo, Valle convida ao palco a cantora Céu que, assim como ele, mistura batidas eletrônicas à música brasileira. Apontada pela crítica internacional e nacional como a maior promessa da MPB para 2006, a jovem apresentará três músicas de seu CD: A Lenda, Malemolência e Rainha. “Ela pediu que eu escolhesse as músicas e a acompanhasse no piano. Depois, terminaremos com duas músicas minhas, que ela escolheu”, adianta Valle. São as músicas Preciso Aprender a ser Só, gravada por Elis Regina, e Samba de Verão, o maior sucesso internacional do cantor, agora com uma roupagem nova.
Céu, 25 anos, teve músicas incluídas na trilha sonora dos filmes O Senhor das Armas, Cidade Baixa e do seriado Cidade dos Homens. Antes de chegar ao Brasil, ela andou pela Europa e o primeiro disco foi editado em junho, em Paris, pelo selo Urban Jungle, bem recebido pelo mercado francês.
É a primeira vez que Valle e Céu se apresentam juntos. O compositor não conhecia o trabalho da cantora. “Quando me propuseram e mandaram o disco dela, gostei muito. Achei que tem tudo a ver, por causa dessa linguagem moderna, de misturar eletrônico com acústico. Além de ter uma voz diferente e sensual”, elogia Valle.
Os dois estarão acompanhados da banda de Marcos Valle, formada por Patrícia Alví (voz), Renato Franco (sax, flauta e teclado), Jessé Sadoc (trompete, trombone e flugel), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa (bateria). “É a banda que toca comigo nos shows e que gravou meu disco. São os melhores músicos do Rio”, diz Valle.
RemixO compositor, hoje com 61 anos, foi companheiro de geração de Edu Lobo e Dori Caymmi, com quem formou um trio em 1961. Em 1965, comemorou seu primeiro sucesso internacional, com a música Samba de Verão. O músico trabalhou nos Estados Unidos nos anos 60 e 70.
Quando a bossa nova saiu de moda, Valle praticamente desapareceu da mídia. Mas teve sua carreira redescoberta por DJs londrinos e pelo público jovem da Europa e do Japão, em meados da década passada. “Eles começaram a tocar nas pistas de dança e abriram um novo mercado para a minha música. Os DJs tocavam minhas gravações originais, que não têm nada de eletrônico, fazendo uma remixagem e colocando eletrônico. Achei muito interessante, gosto de novidades”, lembra Valle.
A partir daí, começou a gravar discos com música eletrônica associada à bossa nova. “Incorporei esse lado eletrônico nas minhas músicas, de maneira sutil”, revela. Em 1997, gravou o disco Nova Bossa Nova, o primeiro dos três que fez para o selo inglês FarOut (Scape, em 1999, e Contrastes, em 2003), misturando os ritmos brasileiros com as batidas eletrônicas dos DJs.
Desde então, ele tem se apresentado anualmente na Europa e no Japão. A repercussão do trabalho internacional chegou ao Brasil e os três discos foram distribuídos no País pela Trama. A nova geração começou a querer entender por que a Europa estava interessada no trabalho dele e houve uma renovação de público. Atualmente, além dos shows em terras tupiniquis, Valle faz duas turnês por ano na Europa e uma no Japão. “Passar a ter um público novo foi um incentivo muito grande para mim. Me deu ânimo para compor mais”, avalia o músico.
Para ele, essa revitalização da bossa nova é muito positiva. “Era isso que a música brasileira estava precisando”, diz. Entre os músicos da nova geração, ele cita Fernanda Porto, Céu e o grupo BossaCucaNova. “Cada um com suas características faz um trabalho de qualidade. Eu venho de uma geração anterior, mas fico feliz em ajudar nesse elo entre a bossa nova e o eletrônico”, afirma Valle.