É o que Shrek fala desde seu primeiro filme: “Que saudades do meu pântano”. Com o tempo – muito pouco tempo, vale reforçar –, o espectador começa também a sentir falta de onde tudo começou na vida do asqueroso ogro verde da Dreamworks, que arrancava blocos de cera do ouvido para acender velas, comia lesmas e banhava-se em sua piscina particular de lama.
Em Shrek Terceiro, que estréia hoje ocupando 25 salas de cinema da cidade, não dura muito para perceber que a realeza, definitivamente, não combina com o personagem e cria uma certa angústia ao apresentar argumento fraco e piadas sem graça, algumas vezes de tão rebuscadas.
Está certo que a sátira cortante dos diálogos e referências visuais a outros filmes e celebridades é o que fez da franquia de Andrew Adamson, agora capitaneada pelo diretor Chris Miller, um fenômeno da animação. Até mesmo em termos gráficos, apesar da dura concorrência com a Pixar/Disney.
Mas o terceiro filme da série do ogro verde mostra que a originalidade ficou no pântano, naquela brilhante idéia de perverter os contos-de-fada e inverter os papéis de mocinhos e bandidos. Em Shrek 2, parte da graça ainda fica por conta do ingresso do Gato de Botas e ainda algumas gags do Burro, que agora parece ter perdido a fala e se atém a instantâneos comentários sobre a futura paternidade de Shrek.
O subaproveitamento dos personagens-chave da trama (inclusive Fiona, que parece mais uma coadjuvante entre as novas amigas, Cinderela, Branca de Neve e Bela Adormecida), rendem alguns bons momentos para personagens segundários, como Pinóquio e o Rei Sapo, o sogro de Shrek que o ordena novo rei.
O enredo também se enfraquece, uma vez que se dispersa em subtramas. Em primeiro plano há a missão desesperada de Shrek em encontrar um outro herdeiro para o trono (o primo distante de sua mulher, Artie); em seguida, a angústia de Fiona em falar para o ogro sobre sua gravidez; e, ainda, há o Príncipe Encantado, que reúne os vilões de Tão Tão Distante para se vingar do verdão.
Shrek nunca se permitiu moldar um perfil infantil. Pelo contrário, as seqüências foram se tornando cada vez mais adultas. O terceiro exagerou. Dificilmente prenderá a atenção da criançada e terá muito trabalho em arrancar risadas de um público mais velho.