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Elogio aos radicais

Arquivo Geral

18/06/2003 0h00

A paixão que move os radicais parece não ter espaço no mundo de hoje, quando o pragmatismo parece enterrar personagens tratadas como improváveis, irreais. Novo livro do peruano naturalizado espanhol Mario Vargas Llosa, O Paraíso na Outra Esquina, é um elogio ao radicalismo, às utopias, contado a partir da biografia romanceada de duas figuras extraordinárias, a pioneira do feminismo Flora Tristán, e seu neto, o pintor Paul Gauguin. São personagens fantásticos que ganham ainda mais força com a narrativa cada vez mais afiada de Vargas Llosa, que reaparece sem o impacto da agitação de A Festa do Bode, seu livro anterior, mas com uma aposta clara na literatura. O Paraíso na Outra Esquina é um livro para ser saboreado, em que o autor alterna a linguagem do narrador tradicional e conversas, cheias de perguntas, com as personagens. São histórias de rompimento e reação, inicialmente com Flora Tristán, inconformada com a posição da mulher em seu tempo (“A viuvez a poupou de descobrir a escravidão que significa o casamento para uma mulher”, diz ela para a jovem madame de Pierreclos) e, alternando em capítulos, com a narrativa de Gauguin que busca romper com a civilização para procurar a arte, a partir de uma mudança para o Taiti.

Vargas Llosa explora as personagens com evidente admiração. E procura não poupar detalhes para mostrar ao leitor quem é sua Flora e quem é seu Gauguin. “À medida em que foi me metendo na história de Flora, vi crescendo a figura de seu neto, Paul Gauguin. Teve uma vida apixonante. Trabalhava como agente da Bolsa de Valores e, aos 28 anos, a conselho de um amigo, matriculou-se numa academia de pintura. Sua vida mudou. Foi um dos grandes pintores, um grande viajante e, como sua avó, foi tambem ao Peru”, disse Vargas Llosa ao jornal Diário 16, de Madri, sobre as personagens. O escritor não tentou fazer biografias. “Não sou biógrafo, sou um novelista”, afirmou, em entrevista coletiva. Vargas Llosa reconhece que as vidas de Flora e Gauguin são cheias de sombras e, evidentemente, ele preencheu as lacunas como ficcionista, embora mantivesse sempre o espírito das personagens e do buliçoso pensamento da época. “Entre os que ocupam o século XIX, o século extraordinário das grandes utopias, das grandes ideologias das grandes ambições. É o século de Balzac e Dickens. Um século em que se sonhou que se podia criar um mundo melhor. Se enganaram porque não se pode trazer o paraíso à Terra, mas seus sonhos, com suas idéias, avançaram muito”, explicou o escritor.

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    18/06/2003 0h00

    A paixão que move os radicais parece não ter espaço no mundo de hoje, quando o pragmatismo parece enterrar personagens tratadas como improváveis, irreais. Novo livro do peruano naturalizado espanhol Mario Vargas Llosa, O Paraíso na Outra Esquina, é um elogio ao radicalismo, às utopias, contado a partir da biografia romanceada de duas figuras extraordinárias, a pioneira do feminismo Flora Tristán, e seu neto, o pintor Paul Gauguin. São personagens fantásticos que ganham ainda mais força com a narrativa cada vez mais afiada de Vargas Llosa, que reaparece sem o impacto da agitação de A Festa do Bode, seu livro anterior, mas com uma aposta clara na literatura. O Paraíso na Outra Esquina é um livro para ser saboreado, em que o autor alterna a linguagem do narrador tradicional e conversas, cheias de perguntas, com as personagens. São histórias de rompimento e reação, inicialmente com Flora Tristán, inconformada com a posição da mulher em seu tempo (“A viuvez a poupou de descobrir a escravidão que significa o casamento para uma mulher”, diz ela para a jovem madame de Pierreclos) e, alternando em capítulos, com a narrativa de Gauguin que busca romper com a civilização para procurar a arte, a partir de uma mudança para o Taiti.

    Vargas Llosa explora as personagens com evidente admiração. E procura não poupar detalhes para mostrar ao leitor quem é sua Flora e quem é seu Gauguin. “À medida em que foi me metendo na história de Flora, vi crescendo a figura de seu neto, Paul Gauguin. Teve uma vida apixonante. Trabalhava como agente da Bolsa de Valores e, aos 28 anos, a conselho de um amigo, matriculou-se numa academia de pintura. Sua vida mudou. Foi um dos grandes pintores, um grande viajante e, como sua avó, foi tambem ao Peru”, disse Vargas Llosa ao jornal Diário 16, de Madri, sobre as personagens. O escritor não tentou fazer biografias. “Não sou biógrafo, sou um novelista”, afirmou, em entrevista coletiva. Vargas Llosa reconhece que as vidas de Flora e Gauguin são cheias de sombras e, evidentemente, ele preencheu as lacunas como ficcionista, embora mantivesse sempre o espírito das personagens e do buliçoso pensamento da época. “Entre os que ocupam o século XIX, o século extraordinário das grandes utopias, das grandes ideologias das grandes ambições. É o século de Balzac e Dickens. Um século em que se sonhou que se podia criar um mundo melhor. Se enganaram porque não se pode trazer o paraíso à Terra, mas seus sonhos, com suas idéias, avançaram muito”, explicou o escritor.

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