O filme de Jayme Monjardim não será a primeira retratação de Olga Benário em tela. Em 1989/90, a Rede Manchete levou ao ar a novela Kananga do Japão, de Tizuka Yamasaki, onde o casal Prestes (Olga e Luís Carlos) é apresentado quase de forma literal. Fugiam da polícia de Filinto Müller – chefe de polícia do Distrito Federal, uma espécie de xerife de Getúlio Vargas –, passando pouco tempo em cada residência escolhida a dedo pela Juventude Socialista e pelos “ilegais” clandestinos. Essa imagem é pura transferência da obra de Fernando Moraes, o livro Olga, lançado em 1985 pela Editora Alfa-Omega.
O filme que Monjardim levará à telona no segundo semestre deste ano é baseado em um texto rico em detalhes, onde a repressão política do Brasil dos anos 30, influenciada claramente pelo fascismo italiano e simpatizante dos avanços de Adolf Hitler, é retratada minuciosamente, lançando suas garras contra qualquer um que desafiasse a ditadura Vargas do Estado Novo.
A pesquisa de Moraes foi iniciada em conversas com a filha de Olga, Anita Leocádia. O escritor esteve na Alemanha, percorreu os caminhos que levaram a heroína ao campo de concentração e conseguiu um bom relato de uma parte da História do Brasil que os livros escolares ignoraram sumariamente entre 1930 e 1985 – período em que os militares ou estiveram no poder ou controlaram o poder no País.
Deve-se destacar nessa história a correspondência de Olga e Prestes. As cartas emocionadas trocadas entre o casal durante o período que permaneceram no cárcere elucidam os maiores dramas vividos pelos seres humanos: intolerância, repressão, saudade, incerteza.
O texto evidencia, também, outra faceta da força emocional de Olga Benário: a coragem de lutar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis. A personagem é dona de uma garra e determinação espantosas, que brotam quando tudo aponta para o fim. Sua vida é uma lição de dignidade e de lucidez frente às adversidades.
A obra de Fernando Moraes traça não apenas a história de Olga, mas um panorama assustador – os desmandos de pessoas equivocadas e despreparadas para o exercício do poder. O Brasil do Estado Novo descartou quaisquer princípios de legitimidade ou de direitos humanos para estabelecer seu comando – um filme repetido alguns anos depois, com o golpe militar de 1964.