Um dos personagens mais antológicos do cinema brasileiro é celebrado 40 anos depois de sua popularização, no primeiro e exuberante longa-metragem de Rogério Sganzerla (1946-2004), cuja versão restaurada sai agora em DVD com extras que incluem entrevistas: O Bandido da Luz Vermelha. A edição acompanha entrevistas e o curta de estréia do diretor, Documentário (1966).
Interpretado por Paulo Villaça (1936-1992), que foi também co-produtor do filme, o fora-da-lei Luz – como os policiais o chamam, enquanto o procuram de forma atabalhoada, mais perseguidos do que perseguidores, por uma São Paulo que ainda parecia romântica, mesmo no crime – simboliza momento de intensa criatividade, batizado de Cinema Marginal, na passagem dos anos 60 para os 70.
O termo pode suscitar equívocos, ao menos em relação a O Bandido da Luz Vermelha. Inspirado na biografia de João Acácio Pereira da Costa e lançado com 40 cópias, tornou-se um grande sucesso de público.
O trailer original, incluído entre os extras do DVD, o apresenta como “totalmente rodado no bairro mais perigoso de São Paulo, a Boca do Lixo’ (liberdade poética-geográfica, pois diversas seqüências foram filmadas fora dali). Era, continuava o trailer, o filme “mais sensacional da temporada’.
Combinação rara continua a distingui-lo, quatro décadas depois: é indiscutivelmente popular, compromissado com o entretenimento do público, mas é também inequivocamente erudito, em seu habilidoso manuseio de diversas heranças, traduzido por inquietos procedimentos de câmera e montagem.
Um “filme de cinema”, como os créditos iniciais o apresentam, nos vários sentidos da expressão. Ou, ampliando o espectro à moda Orson Welles, o realizador mais admirado por Sganzerla, uma espécie de “radiotelecinejornal’, na definição do crítico Jairo Ferreira (1945-2003).
No lançamento do filme, o próprio Sganzerla, também crítico de cinema, divulgou um manifesto, cuja íntegra está nos extras do DVD. “Meu filme é um faroeste sobre o Terceiro Mundo’, diz. “Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros”.