Se existe um momento em que fico feliz por não ter filhos na faixa dos seis aos 12 anos de idade é quando vão ao ar, em Mulheres Apaixonadas, as cenas em que Salete (Bruna Marquezine) começa a sonhar com aquele anjo.
Pelo amor de Osíris, gente! Fico pensando em meus tempos de criança, quando, numa situação dessas, certamente eu estaria assistindo à novela como a maioria das crianças faz junto à família. Acompanhar esse tipo de martírio não me traria bom sono – e creio que atrapalha bastante o das crianças de hoje.
É verdade que meus tempos de criança são longínquos e que, de lá até aqui, o mundo já deu muitas voltas e o universo de informação atual é incomparável ao que me oferecia meu universo. Mas essa distância é apenas um dado cronológico: como muita gente, tive uma infância feliz e conservo dessa fase alguns ensinamentos fundamentais – como o de prestar muita atenção a determinadas cenas do cotidiano. E o cotidiano das crianças de hoje é impregnado de televisão.
Agora que todo mundo já sabe que os sonhos de Salete são premonitórios e que sua mãe, Fernanda (Vanessa Gerbelli), vai morrer de bala perdida, imagine a agonia da meninada acompanhando a pobrezinha em seus pesadelos.
Pior ainda é que esse anjo já mostrou não ser coisas da imaginação infantil: certo dia, Fernanda e sua amiga entraram no quarto da menina e sentiram o vento produzido pelas asas dessa criatura. Durma-se com um barulho desses!
Será que o anjo de Salete é uma versão século 21 dos anjos da guarda? Se for, sugiro que há coisas mais divertidas para ensinar às crianças que vêem televisão – e que contribuem para essa máquina mágica ficar cada vez mais poderosa.