São agradáveis as lembranças do cineasta-bombeiro do Gama, Afonso Brazza. Ao mesmo tempo cultuado e execrado por sua filmografia trash, Brazza trouxe os ensinamentos do cinema marginal e do reduto cinematográfico paulista da Boca do Lixo para os tempos de hoje. Ele provou que cinema pode ser feito apenas com uma idéia na cabeça e muita garra. Hoje fazem dois anos que o ícone da cultura popular brasiliense se foi – no dia 29 de julho de 2003, aos 48 anos, vítima de câncer no esôfago. A data, contudo, não é lembrada com tanto saudosismo, sim, com uma dívida de R$ 100 mil, deixada por seu último filme, o não-finalizado Fuga Sem Destino.
Assim, cineastas de Brasília estão reunidos para dar continuidade à obra inacabada. Profissionais da área mobilizam fãs para arrecadar fundos e quitar as dívidas do longa-metragem. A iniciativa começou no Porão do Rock deste mês, que homenageou Brazza. Entre os shows, o telão exibia trechos dos seus filmes, editados por Pedro Lacerda, cineasta indicado pelo próprio diretor (já em seu leito de enfermidade) para ficar encarregado da finalização da obra.
IniciativaDurante os três dias do Porão, urnas foram espalhadas pelo pátio do estacionamento do estádio Mané Garrincha para levantar verba. “Entramos em contato com o Pedro e descobrimos a situação em que se encontrava a obra do Brazza. Reunimos os interessados e começamos a organizar a campanha”, relatou o diretor de Comunicação e Marketing do evento, Ulisses Xavier.
Além disso, por três semanas, uma guitarra autografada pelos artistas que participaram do Porão – como Pato Fu, Barão Vermelho, Los Hermanos e Supla –, doada pela produção, é leiloada no site www.mercadolivre.com.br, com lance inicial de R$ 1 mil. Uma conta poupança também foi aberta exclusivamente para doações futuras. “Esperamos arrecadar R$ 40 mil, com a ação. E, ainda que isso não aconteça, já vamos estar sensibilizando a população e as autoridades responsáveis”, acredita Ulisses.
Não ocorreu. Foram levantados apenas R$ 244,95 durante o Porão, depositados R$ 10 na contapoupança e nenhum lance foi dado pela guitarra no leilão virtual. O filme dependia do sucesso da campanha de arrecadação para que a estréia de Fuga Sem Destino pudesse ser realizada na edição deste ano do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, em novembro.
Piauiense radicado em Brasília, Brazza ficou conhecido por fazer filmes independentes a partir de material cinematográfico reciclado e contribuição de amigos e fãs. Por isso, teve suas obras criticadas em função de não adotar um estilo acadêmico de produção. “Ele tem um estilo que foge aos padrões técnicos. Esse é seu grande mérito”, define Lacerda.
Os amigos querem preservar essa imagem e conseguir terminar o filme que ele acreditava ser o melhor e mais caro de sua filmografia, de mais de 20 anos. “Por mais que existam pessoas que achem suas obras ridículas, também há quem se interesse e as ame””, considera a produtora Andréa Magalhães.