Considerado por alguns críticos como um dos mais importantes autores da literatura gay contemporânea, David Leavitt mostra romance Enquanto a Inglaterra dorme por que tem sido louvado mundo afora. Ele recorre à Revolução Espanhola para narrar, na primeira pessoa, a história trágica do amor entre dois jovens – Brian Botsford (o autor) e Edward Phelan –, iniciada no metrô de Londres nos anos 1936.
A diferença social dos amantes (Botsford é escritor e Phelan funcionário do metrô) não apenas os persegue, limitando a liberdade e muitas vezes interferindo no relacionamento, como prenuncia o fracasso iminente em lances dolorosos. Botsford, por exemplo, esconde o romance no seu círculo de amizades, apesar de viver rodeado de homossexuais.
E Phelan transfere para a relação sua condição de subalterno na vida, rapaz pobre, de inteligência curta, que trabalha para sustentar a família – mãe, irmã e sobrinhos. Joga na cara de Botsford, nos momentos de crise, que é menosprezado pelo fato de não pertencer à mesma classe social do amante.
Num desses desentendimentos, quando Botsford tenta explicar uma escapada à noite para se encontrar com amigos, Phelan toca na ferida: “Eu sei, eu sei, você ficou envergonhado porque eu pertenço à classe errada”. Como vê o relacionamento definhando irremediavelmente, Phelan procura amparo em O Manifesto Comunista, presente de um dos líderes ingleses da resistência a Franco, John Northrop, homem que fascina o jovem pela fluência verbal.
É pelas mãos de Northrop, numa noite de insuportável desilusão, que Phelan se alista nas brigadas para lutar na Espanha. Começa então a parte mais emocionante do livro e o fim de uma história bem-tramada, com ritmo envolvente, descrita com os dedos da paixão.
Há cenas picantes, sim, mas longe da vulgaridade que costuma caracterizar as obras do gênero. Os puristas certamente encontrarão falhas na tradução. Insuficientes, porém, para comprometer a obra. Assim como os erros de revisão.