Denys Arcand não poupa esforços em engrandecer as pequenas coisas do dia-a-dia e dar a elas proporções épicas (império, bárbaros e era são termos que definiriam algo, a rigor, maior do que o que o cineasta canadense de Quebec pretende fazer). A dobradinha Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras é seu melhor exemplo – o primeiro é mais expressivo que o segundo. Ao apresentar ao público A Era da Inocência, cartaz no FIC Brasília do ano passado e que estréia hoje em circuito comercial, Arcand mira sua camuflada metralhadora de farpas na comunidade de sua própria província (Quebec). Mas, se a arapuca servir…
A Era da Inocência pinta um retrato pós-moderno, quase apocalíptico, da instituição família – de lambuja execra a burocracia no funcionalismo público e rasga o véu do matrimônio. O foco dessa ação é Jean-Marc Leblanc (Marc Labrèche), funcionário público de meia-idade, casado com uma hiperativa corretora de imóveis e pai de duas filhas pré-adolescentes inertes diante de seus iPods e videogames portáteis.
Leblanc vive em dois universos. O primeiro configura-se na inércia diária: deixar as crianças na escola, pegar um trem para a Ouvidoria de Quebec e, então, passar o dia a responder ao cidadão que não há nada que ele possa fazer a respeito.
O outro é pontuado pelos momentos em que, fisicamente, ele cumpre todas suas obrigações de servidor e pai de família. Mas, em sua mente, ele é amado pela ardente Véronica Star (papel da alemã Diane Krueger, de A Lenda do Tesouro Perdido) e ainda leva vida de César.
O roteiro tem lá suas formulazinhas – o riso acompanha algumas repetições, como a repórter que brota nas fantasias do protagonsita nos momentos em que ele se projeta a autor best-seller ou parlamentar.
Mas sua câmera está mais a favor da funcionalidade do que da forma. É um filme narrado burocraticamente, mas que tem um desempenho crítico vitorioso em suas intenções.