Uma das primeiras impressões que se pode ter de As Crônicas de Nárnia, série de contos fantásticos do romancista irlandês C.S. Lewis, é que se trata de um caldeirão de referências aos universos cristão, mitológico e da fantasia infanto-juvenil – para ser mais direto, a Alice no País das Maravilhas, com seu portal para um mundo de imaginação habitado por uma babel de personagens exóticos. Entre as sete histórias de Lewis sobre o mundo mágico de Nárnia, a que talvez melhor reúna essas três abordagens seja O Leão, A Feiticeira e O Guarda-Roupa, primeira crônica do autor a ganhar adaptação para o cinema e cuja estréia em circuito nacional está agendada para hoje.
Da Alice de Lewis Carroll, o autor se apropria da portinha de passagem para uma outra realidade – aqui representada por um armário de casacos de pele. Do cristianismo, ele reedita a trajetória de Jesus – do Getsêmani (onde foi preso) à ressurreição – a partir da figura do leão Aslan, rei de Nárnia. E da mitologia, pinça a Feiticeira Branca (uma espécie de Medusa, a constar pela sua habilidade de transformar seres viventes em pedra), minotauros, centauros, faunos e outros híbridos de humanos e animais.
A história de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-rRoupa inclui um bombardeio da Alemanha nazista à cidade de Londres, durante a Segunda Guerra Mundial. Com o pai no fronte de batalha e a casa como alvo fácil, os irmãos Lucy, Peter, Edmund e Susan Pevensie são obrigados pela mãe a tomar um trem para uma casa de desconhecidos no interior da Inglaterra. E é na mansão de um misterioso professor que a pequena Lucy descobre o armário que a leva até Nárnia, um reino mantido sob a maldição de uma feiticeira.
A direção do filme, assinada pelo conceituado animador Andrew Adamson (premiado duas vezes por sua franquia do ogro verde Shrek) e aliada à fotografia impecável, assegura ao espectador, no mínimo, um espetáculo visual. Os animais, em especial Aslan, têm as curvas e movimentos reproduzidos com perfeição pela tecnologia da animação gráfica; e os efeitos especiais não deixam a desejar.
O deslize está na perda do lúdico da obra original, ao colocar a ação em detrimento da ilusão. Ainda assim, a grande batalha final da crônica – que no livro original não consome mais que duas páginas (das cento e poucas) – anuncia proporções magnânimas, como Peter Jackson fez com O Retorno do Rei de Tolkien, mas enfraquece à medida em que tenta cumprir a demanda da trama. O recado é dado, mas a essência se esvai. Em parte, com culpa nos ombros do casting, que escalou um elenco infanto-juvenil inexpressivo.