Um estudo detectou que algumas pessoas na África que abatem macacos e manipulam a carne para consumo estão infectadas com um tipo de vírus que pertence à mesma classe do vírus da Aids, um fato que pode contribuir para o surgimento de novas epidemias no futuro. A transmissão de vírus entre espécies diferentes já havia sido detectada em laboratórios e entre trabalhadores de zoológicos, mas esta é a primeira vez que se confirma a contaminação natural de seres humanos por vírus de primatas. O artigo de autoria de Nathan Wolfe, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, foi publicado na revista médica The Lancet. De acordo com o estudo, as pessoas contaminadas por um retrovírus de macaco chamado SFV não demonstraram sintomas de doença. Mas outras pesquisas serão necessárias para descobrir se o vírus pode causar algum dano aos seres humanos. “As pessoas que caçam e abatem primatas têm um papel no surgimento de retrovírus”, disse Wolfe. “Elas aumentam os riscos de que elementos patogênicos transmitidos entre espécies possam disseminar futuras epidemias similares à Aids.” Uma das teorias para o surgimento da epidemia de Aids, no início dos anos 80, diz que o HIV é uma forma mutante de um vírus similar encontrado em macacos, o SIV. Para chegar ao resultado, a equipe de cientistas pesquisou os hábitos e coletou amostras de sangue de 1.800 pessoas que vivem em nove cidades ao sul de Camarões. Cerca de 60% delas foram expostas diretamente à carne fresca de chimpanzé, gorilas e macacos. E dez indivíduos apresentaram anticorpos para o SFV, um sinal de que foram expostos ao vírus. O consumo de carne de caça é uma fonte tradicional de alimento para as populações que vivem nas áreas florestais das regiões central e oeste da África. O risco de infecção não se origina do consumo, mas no manuseio da carne fresca, pois o vírus pode ser transmitido por meio de pequenos cortes na pele.