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Compositor de MPB Paulo César Pinheiro lança novo livro

Arquivo Geral

26/12/2009 0h00

Confira abaixo a entrevista com o compositor de MPB Paulo César Pinheiro, sobre o lançamento de seu novo livro.


Como foi a experiência de escrever seu primeiro romance em dez dias?


PAULO CÉSAR PINHEIRO – Começou a vir uma cidade de cais de porto na minha cabeça, com seus habitantes. Os personagens iam chegando, trazendo seus nomes, roupas, feições, cor, e eu achando tudo muito estranho porque eu via as pessoas.


A apresentação deve ter sido longa, já que são quase 60 personagens…


PINHEIRO – É como se eu tivesse estado realmente numa cidade, conhecido seus habitantes, e tivesse ido embora sabendo que eu não ia voltar nunca mais. E mais estranho ainda, os dez dias seguintes eu fiquei meio aéreo, começou a me dar saudade das pessoas.


Pelo vasto caminho que você percorreu como letrista, seria natural o leitor pensar em músicas que compusessem a trilha do romance?


PINHEIRO – No momento em que estava escrevendo o romance, não pensei em música. Consigo separar, embora os três romances tenham sempre um personagem ligado à música. No fundo, são versos meus que eu coloco na boca deles. Essa figura de personagem ligado à música parece que vai ter sempre em romance meu. Talvez seja um alter ego.


Você disse que consegue separar literatura de música. Vinicius de Moraes, quando começou, escrevia dos altos pedestais da erudição. Depois, caiu nos braços do povo com músicas populares e foi criticado. Ainda tem gente que considera letra de música uma arte menor?


PINHEIRO – Existe uma corrente literária que diz que letra de música não é poesia. É uma grande idiotice, até porque ela nasceu cantada. A poesia, antes da escrita nascer, já existia na boca dos menestréis, já nasceu como letra de música. Se alguém me disser que Chico Buarque é um poeta menor eu enforco.


Você acha que o romance está no mesmo patamar de uma letra de música?


PINHEIRO – Na literatura a gente voa mais, não está preso a uma forma musical, está solto no papel. Meu primeiro romance se passa em uma cidade de beira de cais. O segundo em um sertão verde. E o terceiro, parte dele nos igarapés amazônicos, Xapuri, no Acre, e em uma cidadezinha na beira do São Francisco. São três linguagens de três Brasis diferentes.


O livro tem uma linguagem específica, folclórica e rebuscada. Você acha que consegue atingir a todos?


PINHEIRO – Amigos meus começaram a ler “Pontal do Pilar”, com um dicionário, temendo pelas palavras desconhecidas. A partir do quarto capítulo começaram a entender. Minha mãe é semianalfabeta, não chegou a ter o primário completo, e ela entendeu tudo, portanto, qualquer pessoa comum entenderá.


Sua parceria com o ilustrador Marcílio Godoy vai ter continuidade pela Leya?


PINHEIRO – O contrato que eu fiz com a editora foi para os três romances. E é um livro que eles pretendem lançar nos países de língua portuguesa. Tenho amigos escritores africanos que já estão ansiosos pelo livro, como o Mia Couto e o (José Eduardo) Agualusa.


Quando você descreve uma personagem no livro, diz que ela “cresceu com os pés na areia e as vergonhas no sal”. É algo que você já fazia na música. Você prefere o abstrato, dizer o dito pelo não dito?


PINHEIRO – Gosto de fazer a pessoa pensar. Tem que ler de forma que viaje comigo, que vá para o país imaginário ao qual eu fui, comece a ver as pessoas como eu vi.


Você diz que desde jovem era um leitor voraz. É inegável a semelhança de sua linguagem com a de Guimarães Rosa. Leu muitas obras dele?


PINHEIRO – É minha grande influência. A primeira vez que eu li Guimarães, tinha 14 anos. Entrei no mundo dele, entendi tudo. Com 16, eu fiz uma canção chamada Sagarana. É pra mim um dos maiores escritores de todos os tempos. Acho Grande Sertão: Veredas tão importante quanto qualquer clássico mundial.


Você acha então que ele aparece em momentos do livro?


PINHEIRO – É o mestre, né? Assim como outros, como Adonias Filho, Jorge Amado e João Felício dos Santos. Quando comecei a viajar pelo País, eu já conhecia o Brasil pela literatura.


Durante a escrita de Pontal do Pilar, teve de dar um tempo na elaboração de letras de músicas?


PINHEIRO – Meus parceiros foram me abastecendo com músicas para eu colocar letra, foi crescendo uma pilha em cima da mesa lá de casa…


Neste período, quem chegou a lhe mandar material?


PINHEIRO – O Dori (Caymmi), o Edu (Lobo), o Mauricio Carrilho, minha mulher mesmo (a cavaquinista Luciana Rabello)… E daqui de São Paulo, o Vicente
Barreto.


E o Guinga? Vocês nunca mais compuseram juntos? Ele não chegou a lhe mandar material? Saci, parceria de vocês dois comporia bem a trilha de
Pontal do Pilar…


PINHEIRO – O Guinga morreu lá atrás, eu o eliminei da minha vida, deixa pra lá…


Parece que você pegou o gosto por escrever romances, já que fez três em menos de seis meses e já tem um quarto idealizado. Além de seu trabalho como letrista, tem mais material pronto ou em elaboração?


PINHEIRO – Agora está vindo como cachoeira. Além dos romances, estou escrevendo um livro com a história das minhas canções. Há 40 anos eu escuto a mesma pergunta: “Aquela sua música, sou apaixonado por ela… como é que você fez aquilo? Você estava onde?” Relacionei mais ou menos umas 100 músicas.


E em relação à poesia? Tem produzido versos que não sejam para músicas?


PINHEIRO – Tenho muito material, pelo menos seis livros. O primeiro a ser lançado deve ser um com 200 sonetos.


Leia matéria sobre o lançamento do livro na edição impressa do Jornal de Brasília deste sábado (26).

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