Em março de 2003, procurei Nelson Motta para que fizesse a narração sobre um documentário sobre o Fluminense, com texto de Nelson Rodrigues. Por motivo de agenda ele não pôde aceitar, pois estava escrevendo um livro para a coleção Camisa 13 da Geração Conteúdo. Quatro livros da coleção estavam prontos. Comprei todos, li imediatamente e me apaixonei por Palmeiras, Um Caso de Amor, de Mario Prata. Aquele texto era tudo que eu queria: um Romeu e Julieta com futebol. Pensei em fazer um filme na hora. Amo futebol, sou casada com jogador, e vi em Baragatti, aquele torcedor apaixonado, a figura do meu pai, mas felizmente nunca vivemos uma situação parecida. Meu pai não queria um filho cineasta, queria um filho jogador de futebol. Conseguiu um genro – Cláudio Adão.
Depois do entusiasmo com o livro, qual foi o passo seguinte?
Dei o livro para os meus pais que adoraram. Ofereci o livro para o Bruno, que leu rapidinho e me ligou à noite falando “o filme é meu”. Brinquei: “É seu não, é meu”. Disse que tinha adorado, que queria dirigir aquela história. Fiquei feliz com o entusiasmo dele. Comprei os direitos, e comecei a tentar viabilizar o filme enquanto Bruno desenvolvia um primeiro tratamento com Mario Prata. E não foi uma viabilização simples – na verdade tive que correr muito para atender as agendas dos atores, sem falar que o Bruno estava com um convite para filmar nos Estados Unidos.
E como foi a viabilização do filme?
Optei por poucas cotas – não queria um filme como macacão de Fórmula 1, repleto de pequenos patrocínios. Consegui convencer a Buena Vista a investir a sua participação de uma vez – e ela fez isso em um voto de confiança. Fechei depois apoios e parcerias com Pirelli, Brahma, Banco Votorantim, BNDES, Petrobrás, Bradesco, Coteminas, Banespa e o Hotel Emiliano. Em agosto de 2003 começaram os testes com o elenco – Luana Piovani, Luis Gustavo, Marco Ricca. A preparação do filme começou a ser feita em 17 de novembro de 2003. Fizemos um planejamento supercuidadoso. Em 9 de fevereiro de 2004 começaram as filmagens.
“O Casamento de Romeu & Julieta” envolve cenas muito complexas, sobretudo de estádio, com centenas de torcedores na torcida. Como você se preparou para enfrentá-las?
As filmagens duraram sete semanas. Apesar da minha experiência e de ter acompanhado várias produções, foi difícil. Para começar, a produção estava em São Paulo eu não tinha a minha base no Rio. Trabalhei com uma equipe desconhecida. Francisco Ramalho, produtor executivo deu muita força. Conseguimos apoios importantes e com a colaboração das torcidas organizadas Gaviões da Fiel e Mancha Verde ficou mais fácil. Nos jogos, todos os figurantes são torcedores e deram tudo para as cenas. Na véspera da filmagem das encenações das cenas de futebol chovia a cântaros. Fui dormir em pânico – era uma cena complicada, estava tudo preparado, a chuva não poderia atrapalhar. Felizmente, o dia amanheceu com sol e fomos para o estádio.
E quanto às cenas dos jogos de futebol?
Aliás, até a Luana está batendo um bolão. Eu tinha muito medo de filmagem de futebol e contei com a preciosa assessoria do Cláudio Adão, que além de coreografar todas as cenas de futebol -todas as jogadas foram ensaiadas – escolheu 22 jogadores que se parecessem fisicamente com os titulares do Palmeiras e do Corinthians de 1999. Todos os jogadores no filme pertencem ao time de juniores do Palmeiras sub-20. Eles foram maquiados, alguns tiveram o cabelo pintado para ficarem parecidos com os jogadores dos times originais. Queríamos mostrar os jogos como são vistos na TV. Além disso, Cláudio Adão treinou os meninos para jogarem em outras posições. E também treinou a Luana durante três meses – parece que ela leva o maior jeito (risos).
Com o filme pronto, quais as suas expectativas?
Minha meta sempre foi fazer um filme popular, um próximo D. Flor. Por isso chamamos Jandira Martini e Marcos Caruso para retrabalharem o roteiro com ingredientes populares de comédia italiana. Sempre quis fazer um filme de grande comunicação, essencialmente brasileiro, em que o espectador não só risse, mas também se espelhasse e se emocionasse. E acho que conseguimos. Nas várias sessões que estamos realizando antes do lançamento, para os mais diferentes tipos de público, O Casamento de Romeu & Julieta se revelou muito emocionante e próximo do espectador.
Durante a realização do filme, seus pais lhe deram algum conselho?
Vários. O mais importante era “calma”. Calma para lidar com a síndrome do medo de que o filme não vai acabar, entre várias outras síndromes que cercam a produção de qualquer filme, principalmente do primeiro. Gostei tanto da experiência, que já parti para o segundo, Polaróides Urbanas, com direção de Miguel Falabella.