“O site www. topassada.com colocou todas as músicas para baixar. Foi uma loucura. De dois mil acessos por mês, passou a ter sete mil por dia”
“Depois que eu gravei o CD, tive senso crítico para dizer que não ficou bom. Então fiquei dos 13 até os 17 anos fazendo cursos”
Marcelo Moura
Como um furacão, Gizele da Silveira invadiu as rádios e os sites, e, da noite para o dia, virou assunto e mania nacional, inclusive nas pistas de dança e nas festas de adolescentes. Tudo graças ao seu CD Em Busca da Vitória, em cujo repertório ela interpreta as músicas de Madonna traduzidas para o português e, na maioria das vezes, ao pé da letra. É impossível ficar indiferente, já que não há como ignorar a garota de voz aguda que ousou profanar o repertório da rainha do pop. Gizele, como provam suas interpretações, é pura atitude. Aos três anos de idade ficou presa a uma cama devido a uma doença que lhe tirou os movimentos e levou os médicos a acreditarem que ela só iria viver até os seis anos e meio. Graças à medicina ortomolecular, a profecia foi quebrada e Gizele voltou a andar. Durante o período que passou de cama, a menina tinha como passatempo uma fita da Madonna, que lhe serviu de inspiração para começasse a dublar a popstar norte-americana e se apresentar, com outras garotas de Vitória (ES), onde mora, em clubes e eventos, assim que recuperou os movimentos. Foi quando um professor incentivou a menina a gravar as canções, aos 13 anos, em 1998. Agora, aos 18, sócia em uma escola de atores, a mineirinha de Resplendor se prepara para gravar outro CD, que será repertório para DJs de todo o País. Do Espírito Santo, Gizele falou com exclusividade ao Jornal de Brasília.
JBr – Você gravou há cinco anos e só estourou agora, a que você atribui esse sucesso?
Gizele – Fiz aquela gravação sem nenhuma pretensão. Foi um trabalho feito para mim e por mim, para meu estado, destinado aos shows que eu fazia nos fins de semana. O material foi parar nas mãos de um professor meu de inglês, que mostrou para um amigo, editor do site www.topassada.com. Ele aproveitou que na semana seguinte seria aniversário da Madonna e comentou sobre mim no site. Aí colocou uma foto minha, falou sobre o CD e colocou todas as músicas para baixar. Foi uma loucura. De dois mil acessos por mês, passou a ter sete mil por dia. Ele ficou meio assustado, porque até então não sabia de nada. Me ligou, pediu uma entrevista e depois me explicou a história. Quando vi, tinha se alastrado por toda rede e havia muita gente falando de mim, bem e mal. Uma coisa de louco, as pessoas me ligando pedindo entrevistas, matérias em jornais… Eu estou gostando. Tecnicamente não ficou bom, até porque eu era muito jovem, não tinha experiência.
E agora?
Hoje procuro fazer um trabalho sério e com qualidade vocal para conquistar meu espaço. Eu fazia dublagem nos fins de semana, e amava aquilo. Só que eu era a que mais se destacava no grupo de crianças que dublavam artistas, e as pessoas queriam cada vez mais. Então um amigo sugeriu que eu gravasse em português. No início achei absurdo, mas ele me deu um quilo de revistas com traduções, fitas e CDs, enfim, um monte de coisas. E comecei, de brincadeira, a fazer as versões, tentando encaixar as traduções no ritmo. Na época eu não tinha qualquer noção de métrica, estava com dez anos, e não tive nenhum adulto me acompanhando.
Então você gravou sozinha?
É, eu fazia os ensaios em casa, com mais duas amiguinhas. Os garotos que fazem backing vocal são o Bruno Conde, que estudava comigo, e o Eric Nebone. As meninas eram todas da minha idade, molecas de nove, dez anos. Foi coisa de criança.
Como está sua rotina agora?
Uma total correria. O bom é que não preciso mais dizer às pessoas que meu nome é Gizele com “z”.
Quando você vai começar a fazer shows?
Não estou pensando em shows agora. No fim do ano entrarei em contato para fazer presenças, um recurso usado por muitos artistas que vão às festas, cantam umas cinco músicas, conversam com a galera. De repente pode surgir alguma gravadora interessada em produzir algum trabalho da Gizele, e aí acaba rolando. Mas não estou pensando em shows agora.
E o novo CD?
Vou entrar em estúdio novamente, gravando um trabalho que fecha esse ciclo da Madonna em homenagem aos 20 anos de carreira dela. É uma homenagem que preciso fazer em agradecimento pela repercussão que esse primeiro trabalho deu. Vou gravar duas músicas, mas só para boates. Só quero agitar a galera. Estou naquela de deixar a vida me levar, mas, assim que for possível, quero fazer faculdade de Jornalismo.
Você acha que a Madonna já tomou conhecimento de você? Você vai mandar seu trabalho para ela conhecer?
Quem dera. Nem penso nisso, sou humilde. Acho que ela tem tanta coisa na cabeça, filmes, TVs, gravadora, filhos, que não seria novidade nenhuma. O que mais tem por aí são pessoas que a imitam. A diferença é que decidi não imitar, decidi homenagear.
Você acha que ela gostaria de ouvir as músicas cantadas em português?
Acho que ela teria uma crise de risos. Temos o humor muito parecido, então, se fosse eu no lugar dela, ia gostar, ia achar bacana.
Quais são os seus planos futuros?
É aquela pergunta que, quando ouço, penso sempre em responder: casar, ter filhos, continuar minha carreira e ser feliz para sempre. Sempre me foquei no meu lado profissional, acho que até por ter perdido uma fase da infância e da adolescência, nunca dei muita importância pro lado pessoal. Nunca fui de ir ao shopping com as amigas, viajar, ir ao cinema com o namorado, nada disso fez parte dos meus programas, que sempre foram estudo, carreira, figurino, essas coisas. Meus planos são a homenagem aos 20 anos da Madonna.
Como foi sua infância?
Sou filha de mãe solteira. Até os três anos eu era uma criança normal, que aprontava mais do que tudo e fazia poucas e boas. Aos três aninhos eu já falava que queria cantar e dançar, não parava quieta. Só que tive um doença chamada artrite reumatóide, que é hereditária, mas só se manifesta em pessoas que têm tendência e é rara em crianças. Isso foi me fazendo perder os movimentos e eu sentia dores constantes. Aos três anos e meio, parei de andar totalmente. Aos seis anos os médicos me deram mais seis anos de vida. Nenhum medicamento funcionava. Nessa época surgiu a medicina ortomolecular, chamada de medicina dos artistas. Era minha última esperança. O tratamento era muito caro, mas minha mãe mobilizou toda a comunidade e consegui realizá-lo. Em seis meses, em vez de morrer, eu voltei a ter os movimentos. Depois disso, o doutor Marcos, que cuidava de mim, ficou tão sensibilizado que me deu o tratamento gratuito até os 15 anos, quando eu teria resposta se eu ia ficar curada ou não. Hoje, graças a Deus, não sinto nada. Ficaram seqüelas nas juntas, mas canto, danço, pulo, nado, faço tudo.
Como é seu dia-a-dia?
Eu não funciono pela manhã. Menos na quarta-feira, quando tenho que acordar cedo, porque faço curso técnico de publicidade e propaganda. Na segunda-feira à noite, estudo e, nos outros dias, acordo meio-dia, porque só me deito muito tarde, duas, três horas da manhã, não consigo dormir cedo, minha mãe fala que sou meio vampira. Então, acordo tomo banho, ligo o som, como qualquer coisa e vou para rua, vou pro meu curso, na segunda tenho interpretação, na quarta aula de corpo e história do teatro e na sexta técnica vocal. À noite, quando posso, vou malhar. Agora vou parar, porque tenho de começar a ensaiar e vou passar a ir para Vila Velha, ficar na casa do meu parceiro musical Leão Júnior, escolhendo músicas e repertório. Depois volto para casa e respondo meus e-mails. Quando dá, vou a alguma boate, mas nem gosto tanto, porque não suporto cigarro, e nesse ponto eu sou muito diferente da Madonna. Odeio o cheiro que fica no cabelo, mesmo depois de lavá-lo. O entretenimento que o cigarro causa nas pessoas eu posso causar sem ele, e o mesmo vale para o álcool.
Você já trabalhou?
Trabalhei dez dias numa companhia de leite, onde fazia pedidos e cuidava das cargas. Também já fui vendedora de cosméticos, lingerie, trabalhei em lojas, fui telefonista, auxiliar administrativo, o último emprego foi como negociadora da Caixa Econômica. Meu primeiro emprego foi de telefonista que passa mensagem para bip, aos 14 anos. Era horrível, eu trabalhava de seis da manhã às duas da tarde.
E em que você está investindo agora?
Tenho um curso de atores que administro e às vezes também dou aula, voltada para interpretação de televisão, porque a minha formação primeiro foi de TV. Agora estou me especializando no teatro. Aprendi isso estudando. Depois que eu gravei o CD, tive senso crítico para dizer que não ficou bom. Então fiquei dos 13 até os 17 anos fazendo cursos. Devorava tudo o que vinha e fiz amizade com muitos atores e atrizes. Fiz ainda um curta-metragem que vai estrear este ano.
E o namorando?
Não tenho. Oficialmente, não. Nunca namorei de verdade, pelo menos com ninguém da minha cidade. Quando eu tinha 16 anos, conheci na Internet um rapaz da Argentina que morava perto da fronteira do Brasil. Ficamos cinco meses trocando e-mail, nos apaixonamos e ele veio passar o ano-novo comigo. Começamos a namorar, mas ele voltou para lá. Devido a ciúmes e à minha carreira, ele ficava muito inseguro. Até hoje trocamos e-mail três vezes por semana. É claro que não estamos namorando, não temos futuro. Aqui no Brasil nunca rolou nada, até porque minha vida é muito corrida.