Dois filmes exibidos no Festival de Cinema de Cannes mostram como a falta de emprego, de dinheiro e de reconhecimento social podem levar os europeus ao desespero.
Em Juventude em Marcha, o diretor português Pedro Costa conta a dura história do trabalhador cabo-verdiano Ventura, que vive na periferia de Lisboa e é forçado a deixar o apartamento no qual mora há 34 anos.
O diretor Lucas Belvaux descreve a vida da classe trabalhadora belga em La Raison du Plus Faible (A Razão do Mais Fraco), que também compete pela Palma de Ouro. Ambientado no leste da Bélgica, o filme mostra como Patrick (Eric Caravaca) e seus amigos perdem seus empregos quando a siderúrgica em que trabalham é fechada. Com isso, pessoas que se enxergavam como membros da "aristocracia da classe operária" se vêem desempregadas de uma hora para outra.
Patrick passa a cuidar de seu filho, Steve, enquanto sua mulher, Carole (Natacha Regnier), trabalha numa lavanderia industrial. Quando a mobilete de Carole quebra e Patrick não tem dinheiro para comprar outra, ele se sente humilhado. Seus amigos Robert, Jean-Pierre e Marc, este último um ex-presidiário em liberdade condicional, decidem assaltar o ferro-velho de seu antigo local de trabalho para obter dinheiro para a mobilete.
Rodado sem iluminação, cabos, maquiagem, geradores ou refeições para atores e equipe técnica, Juventude em Marcha conta a história do operário aposentado Ventura e as pessoas de seu bairro, um analfabeto para quem ele escreve cartas e uma mãe solteira e doente.
Em uma carta de amor escrita à esposa que o deixou, Ventura escreve: "Eu queria poder lhe dar 100 mil cigarros, uma dúzia de vestidos bonitos, um carro, a casinha que você sempre quis e um buquê de quatro vinténs".