Por Anna Beatriz Lisbôa, da redação do Clicabrasilia.com.br
Depois do sucesso de vendas em livro e de ter levado mais de 175 mil espectadores para assistir a adaptação para o teatro, Divã chega nesta sexta-feira (17), aos cinemas de todo o Brasil. O filme de José Alvarenga Jr. conta a história de Mercedes, vivida por Lília Cabral tanto nos palcos quanto no cinema, uma professora de matemática casada, mãe de dois filhos adolescentes e que, com seus 40 anos, acredita estar levando uma vida razoavelmente confortável, sem motivos para reclamar.
Mesmo estando “tudo tão bem”, Mercedes procura um psicanalista, por motivos que nem ela consegue verbalizar a princípio. Com timidez, ela começa a apresentar os personagens principais de sua vida: o marido Gustavo (José Mayer), a melhor amiga Mônica (Alexandra Richter), os filhos, cabeleireiro, etc. Aos poucos, ela descobre sob a aparente calmaria de sua vida, um turbilhão de sentimentos e emoções, que não encontravam vazão dentro do seu dia-a-dia de classe média. A partir daí, a estabilidade monótona de sua vida se desfaz e a personagem se lança a novas experiências.
Ao ouvir Mercedes descrevendo seu cotidiano, é impossível não ficar com a sensação de que já conhecemos esta pessoa de algum lugar. De fato, o grande mérito do roteiro de Marcelo Saback, que adaptou o livro de Martha Medeiros para o teatro e também assinou o roteiro do filme, é construir uma personagem expressiva em sua simplicidade. Trata-se de uma visão sensível sobre uma mulher que, aparentemente, não tem nada de espetacular, mas que guarda uma riqueza interior surpreendente.
Dos palcos para as telas
Lília Cabral, que depois de três anos em cartaz com a peça, conhece a personagem como ninguém, explica por que Mercedes parece tão familiar ao público: “Ela é comum, é muito simples e não tem a pretensão de ser nada. Mas o pensamento dela é rico. Ela não é travada, nem preconceituosa”,
acredita.
Segundo a atriz, embora a temática da história seja bem explorada na televisão, o cinema permite que o assunto seja retratado de outra forma. “A história vem ao encontro de vários temas femininos, discutidos nas novelas. O assunto é o mesmo, mas é contado de forma diferente, contemporânea”, analisa.
Uma das adaptações feitas do teatro para o cinema foi nas cenas em que Mercedes conversa com seu analista, Lopes. Nos palcos, as sessões de análise eram monólogos dirigidos à platéia. No cinema, Lopes aparece como uma figura passiva, sempre de costas, sem rosto e sem voz. O recurso é mais eficiente do que simplesmente usar a voz de Lília como narração e reforça a idéia de que a transformação na vida de Mercedes não é fruto do tratamento psicológico, mas é movida pela própria personagem.
Comparando as versões para o teatro e para o cinema, Lília garante que, mesmo depois de três anos convivendo com a personagem nos palcos, Mercedes permanece surpreendente para ela: “No cinema, gosto de ver essa transformação, que eu não via. No palco, eu só fazia toda a noite”, explica.
Em sua jornada de auto-descoberta, a personagem acaba se envolvendo em relacionamentos bem diferentes do que tinha com seu marido Gustavo. As novas aventuras de Mercedes são acompanhadas de perto pela amiga Mônica, que a conhece como ninguém. Mercedes e Mônica vivem a mesma realidade de classe média, mas reagem a ela de forma completamente diferente.
A dinâmica construída entre elas funciona para delinear de forma ainda mais clara a personalidade livre de Mercedes: enquanto uma anseia libertar-se dessa realidade previsível, a outra encontra nela a proteção que precisa viver.
Apesar de ser mais lembrado por dirigir programas humorísticos como Os Normais, A Diarista, Os Aspones, Minha Nada Mole Vida, etc, José Alvarenga Jr. consegue mesclar a comédia rasgada com momentos mais introspectivos, dando leveza ao roteiro de Saback. “A direção do Alvarenga acrescentou tudo”, avalia Lília. “As nuances dos personagens, a beleza da fotografia. Fui guiada por ele, me senti segura.” O resultado é um filme que diverte e emociona na medida certa.