Onde “mora” o sonho no cérebro humano? Pesquisadores do Hospital Universitário de Zurique, na Suíça, monitoraram as ondas do cérebro da paciente enquanto ela dormia e acreditam ter localizado a parte do cérebro onde os sonhos são criados.
A descoberta foi feita após o tratamento de uma mulher que havia parado de sonhar em função de um derrame. Este problema afetou uma área no fundo da parte de trás do cérebro. Os cientistas acreditam que essa é a área onde os sonhos são criados.
Os pesquisadores, que escreveram na revista acadêmica Annals of Neurology, dizem que a descoberta oferece novas possibilidades para as pesquisas sobre os sonhos.
A paciente de 73 anos perdeu uma série de funções do cérebro, a maior parte relacionada à visão, depois do derrame. A maior parte desses efeitos foi sentida alguns dias depois, mas, aí, ela parou de sonhar. Antes, ela costumava ter sonhos três ou quatro vezes por semana.
A perda da habilidade para sonhar – juntamente com problemas na visão – como conseqüência de danos a uma parte específica do cérebro é chamada de síndrome de Charcot-Wilbrand, levando os nomes dos neurologistas Jean-Martin Charcot e Hermannn Wilbrand, os primeiros a descreverem a condição no século 19. A doença é bem rara, especialmente casos onde somente a perda da capacidade de sonhar é verificada.
monitoramentoOs pesquisadores suíços decidiram monitorar a paciente para tentar descobrir que parte do cérebro era afetada em pessoas com aquela condição. As ondas do cérebro da mulher foram monitoradas por seis semanas enquanto ela dormia. O sono da paciente não foi alterado e ela continuava apresentando o movimento rápido dos olhos como normal.
O movimento dos olhos é significativo porque os sonhos acontecem ao mesmo tempo em que as pálpebras se movimentam. Contudo, pesquisas já indicaram que as duas atividades são reguladas por sistemas independentes do cérebro.
Imagens do cérebro da paciente mostraram que o derrame havia danificado uma área localizada no fundo da parte de trás do cérebro dela. Outros estudos mostraram que parte dessa região do cérebro está envolvida no processamento visual de rostos e paisagens, assim como no processamento de emoções e memórias visuais, o que parece bem lógico para uma região que estaria relacionada à origem ou ao controle dos sonhos.
Cerca de um ano depois do derrame, a paciente passou a ter alguns sonhos, mas nunca mais do que um por semana. “Esses resultados descrevem pela primeira vez em detalhe o tamanho necessário da lesão para que haja perda da capacidade de sonhar, na ausência de outros problemas neurológicos”, escreveu Cláudio Bassetti, do Hospital Universitário de Zurique.